Tribunal de Justiça de MT
Exposição no Fórum de Cuiabá revela, pelos traços de crianças, a dor da violência doméstica
Publicado em
10 de março de 2026por
Da Redação
“Eu tinha cinco anos. A casa da minha avó, em Juiz de Fora, Minas Gerais, era um sobrado. A tia que eu mais amava, irmã do meu pai, era muito loira, de olhos azuis, pois nossa família é descendente de alemães. Eu vi o marido dela, meu tio, bater nela e empurrá-la escada abaixo. Era uma escada linda, de mármore, com dois lances. Eu assisti quando ele a empurrou e ela rolou até lá embaixo. Quando ela conseguiu se levantar, não eram apenas os olhos dela que estavam azuis. O corpo inteiro estava azul, machucado. Tenho hoje 74 anos, quase 75, e nunca esqueci aquele momento. Eu não queria mais ir à casa da minha avó, porque não queria lembrar que a tia que eu mais amava tinha sido vítima daquela agressão. Se eu tivesse sido chamada para desenhar naquela época, provavelmente faria um desenho semelhante a um que vi nesta exposição: o de uma criança que mostra uma faixa escondendo feridas e escoriações de uma vítima. A criança às vezes não consegue falar, mas fala por meio do desenho”.
O relato emocionado da desembargadora Maria Erotides Kneip marcou a abertura da exposição “Desenhos que Falam: percepções sobre a violência doméstica”, que ficará em exibição no Fórum de Cuiabá de 9 a 31 de março. A mostra reúne ilustrações produzidas por estudantes do 5º ao 9º ano da rede estadual de ensino e integra as ações realizadas durante o mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.
Organizada pela Defensoria Pública de Mato Grosso (DPEMT), por meio do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem), a exposição chega ao Fórum da Capital numa parceria com o Poder Judiciário de Mato Grosso. O objetivo é provocar reflexão sobre a violência contra as mulheres e reforçar a importância de discutir o tema dentro e fora das escolas.
Segundo a desembargadora Maria Erotides, coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), os desenhos revelam sentimentos que muitas vezes as crianças não conseguem expressar em palavras. “As crianças são capazes de reproduzir os seus sentimentos nos desenhos. Elas falam através deles. Principalmente aquelas que vivenciam a violência contra as mães, contra as tias ou contra pessoas que elas amam”, afirmou.
Ela destacou que muitas das ilustrações mostram experiências vividas de perto pelos estudantes. “Quando as pessoas veem os desenhos, elas se impressionam. Pensam: ‘Meu Deus, essa violência é capaz de provocar uma dor tão grande a ponto de a criança expressar isso dessa forma?’.”
Educação como ferramenta de prevenção
A exposição nasceu a partir de visitas realizadas por defensoras públicas em escolas estaduais de Cuiabá durante atividades da campanha Agosto Lilás, voltada ao enfrentamento da violência doméstica.
Durante palestras e rodas de conversa com estudantes, os alunos foram convidados a expressar, por meio de desenhos, como percebem a violência contra a mulher. O resultado foi um conjunto de imagens fortes, que retratam agressões físicas, sofrimento emocional e o impacto da violência dentro das famílias.
Para a defensora pública-geral do Estado, Luziane Castro, o material produzido pelos estudantes mostra como a violência doméstica afeta não apenas as mulheres, mas também crianças e adolescentes. “Essa exposição nasceu de um projeto que realizamos nas escolas públicas. Durante as visitas, os alunos produziram desenhos que mostram como percebem a violência contra a mulher. A partir deles, conseguimos entender o quanto essa violência atinge toda a família”, afirmou.
Segundo ela, o impacto das imagens ajuda a despertar a consciência da sociedade. “Queremos que as pessoas se choquem, que se indignem. A indignação é o primeiro passo para que possamos mudar essa realidade”.
Desenhos que pedem socorro
A juíza diretora do Foro da Comarca de Cuiabá, Hanae Yamamura, explicou que a exposição foi trazida para o Fórum após indicação da juíza Ana Graziela Vaz de Campos, titular da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.
De acordo com a magistrada, o espaço foi escolhido justamente pela grande circulação de pessoas. “O Fórum de Cuiabá é a maior casa do Poder Judiciário no estado. Aqui trabalham cerca de 1.500 servidores e circulam aproximadamente oito mil pessoas por mês. É um local importante para sensibilizar a sociedade”, destacou.
Para a juíza, os desenhos representam um alerta sobre o impacto da violência no ambiente familiar. “Esses desenhos estão gritando. Eles mostram que a violência não atinge apenas a mulher, mas também toda a família, principalmente as crianças”.
O desafio de enfrentar a violência
Durante a abertura da exposição, a juíza Ana Graziela Vaz de Campos lembrou que Mato Grosso registra números preocupantes relacionados à violência contra a mulher.
Segundo ela, o estado ocupou o primeiro lugar no ranking nacional de feminicídios em 2023 e 2024, e ficou em terceiro lugar em 2025.
Diante desse cenário, a magistrada reforçou que iniciativas nas escolas são fundamentais para mudar essa realidade. “Quando levamos esse debate para os bancos escolares, estamos desenvolvendo uma política pública de prevenção antes mesmo que o crime aconteça”.
Para as instituições envolvidas, “ouvir” o que as crianças expressam nos desenhos é um passo importante para quebrar ciclos de violência e construir uma sociedade mais consciente.
“Quando passarmos por este corredor, precisamos ouvir o que essas crianças estão dizendo nos desenhos”, concluiu a desembargadora Maria Erotides. “Elas estão pedindo socorro. E nós precisamos agir para que esse grito não seja ignorado”.
Autor: Roberta Penha
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Judiciário de Mato Grosso inicia programação da III Semana Nacional dos Juizados Especiais
Published
14 horas agoon
15 de junho de 2026By
Da Redação
O Poder Judiciário de Mato Grosso iniciou nesta segunda-feira (15) a programação da III Semana Nacional dos Juizados Especiais. Preparadas por meio do Departamento de Apoio aos Juizados Especiais (DAJE), vinculado à Corregedoria-Geral da Justiça (CGJ-TJMT), as atividades incluem capacitação, reconhecimento de boas práticas e discussões sobre o presente e futuro dos Juizados Especiais.
Colocando em pauta o tema “Fortalecer os Juizados Especiais é fortalecer a Justiça”, a mobilização nacional coordenada pelo Conselho Nacional de Justiça e operacionalizada pelos tribunais segue até a próxima sexta-feira (19). Em Mato Grosso, a abertura da programação foi realizada no Complexo dos Juizados Especiais Desembargador José Silvério Gomes, em Cuiabá.
Em sua fala aos mais de setecentos participantes, entre presenciais e virtuais, o presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), desembargador José Zuquim Nogueira fez questão de agradecer todos os integrantes do sistema de juizados pela dedicação e amor empenhados diariamente. Segundo ele, esse é um sistema que potencializa o atendimento das demandas reprimidas.
“Demandas reprimidas exigem prontidão, comprometimento e celeridade. Vivemos um tempo em que não se admite mais um juiz dentro de uma redoma. Deve haver participação na sociedade, para que nós possamos fortalecer todo o nosso sistema judiciário. Por isso, externo aos integrantes dos Juizados Especiais a minha gratidão e alegria de participar deste momento”, disse Zuquim.
Pioneirismo
O corregedor-geral da Justiça, desembargador José Luiz Leite Lindote enfatizou a importância dos Juizados Especiais para a sociedade e para o Judiciário. Nesse contexto, apontou que Mato Grosso sempre foi pioneiro, sendo um dos primeiros no país a implantar esse modelo e se destacando desde que o sistema ainda era chamado de “Juizado de Pequenas Causas”.
“Essa é a porta de entrada do cidadão no Judiciário. É onde se julga a maioria das ações sem custos e de pequenos valores. É um modelo que garante acesso a todos os cidadãos, principalmente os mais carentes, resolvendo problemas que, às vezes, são pequenos para o Judiciário, mas de valor inestimável para as pessoas que recebem a prestação do serviço”, comentou.
Para o presidente do Conselho de Supervisão dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais de Mato Grosso, desembargador Sebastião de Arruda Almeida, a Semana Nacional permite um momento de reflexão sobre o passado e o futuro. “O valor que os Juizados Especiais alcançaram é graças ao trabalho de pioneirismo, resistência e por vontade que esse sistema tivesse a dimensão que hoje tem”, lembrou o desembargador.
O desembargador Carlos Alberto Alves da Rocha, um dos entusiastas dos Juizados Especiais, reforçou a importância desse trabalho. “Continuem acreditando nos Juizados Especiais, pois muitas pessoas precisam dessa prestação jurisdicional. E, muitas vezes, não é só ação, é uma comunicação, é uma conversa com essas pessoas que a gente resolve o caso dela”, afirmou.
Programação
A programação contou com palestras ministradas por juízes e juízas que atuam nos Juizados Especiais de Mato Grosso. Também foram apresentados projetos como o Programa de Acolhimento e Formação Inicial dos Estagiários, a Exposição Permanente dos Juizados Especiais, o Espaço Colaborativo dos Juízes Leigos e o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania dos Juizados Especiais do Estado de Mato Grosso (Cejusc dos Juizados Especiais Estadual).
Além disso, foi inaugurada a exposição, que se tornará permanente, “Juizados Especiais de Cuiabá”, que conta com arquivos físicos, equipamentos, togas e outros materiais que contam a história dos Juizados Especiais de Mato Grosso. Também fez parte das atividades desta segunda-feira o lançamento do livro “Uma Justiça, Muitos Brasis”, que tem como coautora a juíza Patrícia Ceni, do Juizado Especial do Torcedor de Cuiabá.
“O CNJ fez com que nacionalmente fosse realizada, nesta semana, a III Semana Nacional dos Juizados Especiais. É um evento que nos traz grandes reflexões e várias atividades estão sendo implementadas. Temos treinamentos com conciliadores, melhoria nos espaços dos juízes leigos, reuniões e divulgação dos nossos trabalhos”, relatou a dirigente do Complexo dos Juizados Especiais, juíza Valdeci Moraes Siqueira.
Registro de presenças
Participaram da solenidade de abertura o presidente do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec), desembargador Mário Roberto Kono, a desembargadora Juanita Cruz da Silva Clait Duarte, o coordenador do Conselho de Supervisão dos Juizados Especiais, juiz Érico de Almeida Duarte, a presidente da Associação Mato-grossense de Magistrados (AMAM), Jaqueline Cherulli, juízes auxiliares da Presidência do TJMT, juízes auxiliares da Corregedoria-Geral da Justiça e a defensora pública-geral do Estado de Mato Grosso, Maria Luziane Ribeiro de Castro.
Também fizeram pronunciamentos de forma virtual o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), e a conselheira Andréa Cunha Esmeraldo, coordenadora do Comitê Nacional dos Juizados Especiais (Conaje/CNJ).
Autor: Bruno Vicente
Fotografo: Rodrigo Moura
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
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