AGRONEGÓCIO
Governo comemora recorde nos portos, mas agronegócio segue “em lombo do caminhão”
Publicado em
14 de dezembro de 2025por
Da Redação
Apesar do tarifaço impostos pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o setor portuário brasileiro está vivendo um ciclo raro de notícias positivas para a logística do agronegócio. Entre 2024 e 2025, o Ministério de Portos e Aeroportos consolidou um volume recorde de concessões e autorizações, somando quase R$ 300 bilhões de reais. Esse esforço se reflete diretamente na movimentação de cargas: a expectativa oficial é ultrapassar a marca de 1,3 bilhão de toneladas movimentadas em 2025, com crescimento de cerca de 4% no volume nacional em outubro e alta de 14% no Porto do Rio de Janeiro em novembro.
Para o produtor rural, esses números significam, na prática, mais capacidade para escoar grãos, carnes, açúcar, celulose e outros produtos do campo, num momento em que o frete e a competição internacional pesam cada vez mais na rentabilidade.
Mesmo com as tarifas mais altas impostas pelos EUA e que agora estão caindo, o governo e o setor privado projetam ganho de eficiência nos terminais, com potencial para reduzir gargalos e evitar filas em épocas de pico, como colheitas e safra de exportação. A mensagem é que, se o custo de acesso a certos mercados subiu, a resposta do Brasil passa por ampliar infraestrutura e tentar compensar parte dessa pressão por meio de logística mais moderna.
O exemplo mais recente desse movimento está no Porto do Rio de Janeiro, que recebeu a aprovação de um pacote de investimentos privados de 948 milhões de reais para a expansão e modernização do terminal de contêineres operado pela ICTSI Rio Brasil Terminal.
O projeto, previsto para ser executado entre 2025 e 2029, deve ampliar em cerca de 18 mil metros quadrados a área operacional e aumentar a capacidade em mais de 70%, elevando o potencial total de 440 mil para 750 mil contêineres (medidos em TEUs) por ano. Para o agronegócio, isso abre espaço para mais contêineres refrigerados, cargas de maior valor agregado e rotas mais frequentes, ligando o interior do país a mercados externos com menor risco de congestionamento.
Os investimentos no Porto do Rio também têm efeito direto na economia regional e no entorno das cadeias do agro. A estimativa é que as obras e a expansão do terminal gerem cerca de 3 mil empregos diretos, além de vagas indiretas em transporte rodoviário, serviços, armazenagem, manutenção e tecnologia. O governo sinaliza ainda disposição para apoiar uma terceira etapa de expansão do grupo operador, com aporte adicional de recursos públicos e privados, reforçando a posição do Rio de Janeiro como polo logístico de ligação entre o Sudeste, o Centro-Oeste e o mercado internacional.
Isan Rezende
MAIS INVESTIMENTOS – Investir pesado em novos modais de transporte deixou de ser opção e virou questão de sobrevivência para o agronegócio brasileiro, avalia o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Confederação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende.
Ele lembra que o país colhe safras cada vez maiores, mas continua escoando a maior parte da produção “no lombo do caminhão”, em rodovias saturadas, caras e vulneráveis ao clima. “Hoje, mais de 60% dos grãos ainda seguem por estradas até os portos, o que encarece o frete, reduz competitividade e aumenta a dependência de regiões específicas de saída, como Santos e Paranaguá”.
Para Rezende o aumento recente de concessões em portos e aeroportos é um passo importante, mas insuficiente se não vier acompanhado de uma mudança estrutural na matriz de transporte. “Programas que prometem oito novos leilões de ferrovias e mais de 500 bilhões de reais em investimentos precisam sair do papel mais rápido para aliviar o custo logístico do agro ao longo da próxima década”.
“O produtor está fazendo a parte dele em produtividade e tecnologia; o gargalo agora é levar essa riqueza até o mercado interno e externo com custo competitivo”, pontua Isan, destacando que a conta do frete hoje consome uma fatia crescente da margem das fazendas de grãos, fibras e proteínas.
“Um dos símbolos dessa encruzilhada é a Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar o coração do Mato Grosso aos portos do Arco Norte, encurtando distâncias até o oceano e reduzindo o fluxo pesado de caminhões na BR-163. O projeto continua travado por questões jurídicas e regulatórias, enquanto o governo fala em leilão apenas a partir de 2026, o que empurra qualquer efeito real sobre o custo de transporte para o fim da década. Cada safra que sai sem a Ferrogrão operando é um ano a mais em que o produtor paga mais caro para embarcar seu grão pelo asfalto, queimando diesel, pneus e tempo em filas”, reforça.
O dirigente também destaca o papel estratégico dos portos do Arco Norte, como Itaqui, Santarém, Miritituba e outros terminais que vêm ganhando terminais privados, mas ainda operam no limite em períodos de pico de safra. Na visão de Rezende, a combinação de investimentos em novos berços, dragagem, pátios e acessos — somada à expansão de terminais de contêineres em portos como o do Rio de Janeiro — pode redesenhar o mapa logístico do agro, desconcentrando fluxos hoje muito dependentes do Sudeste. “Quanto mais opções de rota o produtor tiver, maior será o poder de negociação dele com tradings e transportadoras, e menor a chance de colapso em épocas de safra cheia”, observa.
Rezende defende que o debate sobre infraestrutura seja tratado como política de Estado, e não apenas como pauta de governo ou promessa de campanha. Para ele, concessões bem estruturadas, segurança jurídica e previsibilidade regulatória são condições básicas para atrair capital privado de longo prazo para ferrovias, hidrovias, portos e terminais retroportuários. “O agro já provou que consegue produzir; agora o Brasil precisa provar que consegue escoar. Se o país entregar logística à altura da sua agricultura, o setor continua puxando o crescimento, gerando emprego e ajudando a segurar o custo dos alimentos para a população”, resume o presidente do IA e da Feagro-MT.
Para o produtor, o recado principal é que a logística — muitas vezes vista apenas como custo — está no centro da estratégia para manter a competitividade do agro brasileiro nos próximos anos. Mais concessões, leilões e modernização de portos e aeroportos podem significar, no médio prazo, menos gargalos, tempos de espera menores e condições mais favoráveis de negociação com tradings, cooperativas e indústrias. Em um ambiente de juros altos, câmbio volátil e pressão de tarifas externas, o avanço da infraestrutura de transporte e armazenagem se torna um dos poucos fatores estruturais capazes de aliviar parte do “Custo Brasil” e preservar margens no campo.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
Published
5 dias agoon
28 de julho de 2026By
Da Redação
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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