AGRONEGÓCIO

Guerra pressiona custos no campo e amplia incertezas para produtores

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Os efeitos da guerra no Oriente Médio começam a chegar ao campo brasileiro e devem pesar cada vez mais no bolso do produtor rural. A avaliação é do presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), que vê no atual cenário internacional um fator de pressão sobre custos de produção e uma fonte adicional de incerteza para diferentes cadeias do agronegócio.

Segundo Rezende, o conflito ocorre em um momento delicado para o setor, em que parte das cadeias produtivas ainda tenta recompor margens após um período de forte elevação nos custos agrícolas. “Quando há uma crise internacional desse porte, o primeiro impacto costuma aparecer nos insumos e na logística. Diesel, fertilizantes e fretes são diretamente afetados, e isso chega muito rápido ao produtor”, afirma.

O aumento das tensões na região do Golfo Pérsico tem elevado os preços internacionais do petróleo e reacendido preocupações sobre o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, corredor estratégico para o comércio global de energia. Como o diesel é um dos principais insumos utilizados na produção agrícola e no transporte de grãos e carnes, qualquer movimento de alta tende a repercutir imediatamente no custo das operações no campo.

Na pecuária, o momento é de relativa estabilidade após um início de ano mais firme para o mercado do boi gordo. Nas principais praças pecuárias do país, a arroba apresentou recuos pontuais nas últimas semanas, mas permanece em patamar elevado em relação ao observado ao longo de boa parte de 2024. Em São Paulo, principal referência nacional, a arroba gira em torno de R$ 345, enquanto em Goiânia e Cuiabá as cotações permanecem próximas de R$ 330 e R$ 340, respectivamente.

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Para Rezende, esse movimento indica uma fase de acomodação natural do mercado, após a valorização observada no início do ano. “A pressão sobre a arroba diminuiu e os preços tendem a se estabilizar nesse momento. O produtor ainda encontra um ambiente relativamente favorável, principalmente por causa das exportações, mas o cenário internacional exige atenção”, diz.

De fato, a demanda externa continua sendo um dos principais fatores de sustentação para a pecuária brasileira. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que as exportações de carne bovina seguem em ritmo forte neste início de março. Nos cinco primeiros dias úteis do mês, o Brasil embarcou quase 60 mil toneladas da proteína, com receita superior a US$ 340 milhões. Em relação ao mesmo período do ano passado, houve crescimento tanto no volume quanto no valor médio das exportações.

Se a pecuária encontra suporte no mercado internacional, no segmento de grãos o cenário já revela maior sensibilidade ao ambiente externo. O milho, insumo central para a produção de ração animal e um dos principais produtos da agricultura brasileira, tem refletido com mais intensidade as incertezas geradas pelo conflito.

De acordo com Rezende, a instabilidade nos mercados internacionais de energia e fertilizantes tende a influenciar diretamente o custo de produção agrícola, além de afetar as expectativas de preços para grãos. “O milho é um produto muito sensível ao cenário global porque está ligado à produção de ração, à exportação e também ao custo da pecuária. Quando o mercado internacional entra em turbulência, o cereal costuma reagir rapidamente”, afirma.

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Outro fator de preocupação está na logística global. Tensões geopolíticas podem alterar rotas marítimas e elevar o custo do transporte internacional de mercadorias, algo particularmente relevante para um país como o Brasil, cuja produção agropecuária depende fortemente das exportações.

Na avaliação de Rezende, o principal desafio para o produtor será administrar esse ambiente de maior imprevisibilidade sem comprometer o planejamento das próximas safras. “O agronegócio brasileiro aprendeu a lidar com ciclos de preços e com oscilações de mercado, mas conflitos internacionais sempre trazem um elemento adicional de risco”, afirma.

Ele ressalta que, historicamente, choques geopolíticos costumam atingir primeiro os custos de produção antes de se refletirem nos preços recebidos pelos produtores. “O diesel, o fertilizante e o frete sobem rapidamente. Já o preço das commodities nem sempre acompanha esse movimento na mesma velocidade. É por isso que o produtor precisa redobrar a atenção neste momento”.

Para o dirigente da Feagro-MT, o impacto real da guerra sobre o agronegócio brasileiro dependerá sobretudo da duração do conflito e de seus efeitos sobre os mercados de energia e insumos agrícolas. Caso a tensão se prolongue, o reflexo poderá ser sentido com mais força no planejamento da próxima safra.

“Hoje o conflito está distante geograficamente, mas seus efeitos econômicos chegam muito rápido ao campo. O produtor brasileiro precisa acompanhar esse cenário com atenção porque, em última análise, ele pode influenciar diretamente o custo de produzir alimentos no país”.

Fonte: Pensar Agro

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AGRONEGÓCIO

Alta de insumos, frete e diesel com guerra aperta margem e preocupa safra 2026/27

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Isan Rezende

“O produtor rural brasileiro define agora, entre maio e agosto, o custo da safra 2026/27 — cujo plantio começa a partir de setembro no Centro-Oeste — com uma conta mais pesada e fora do seu controle. A ureia subiu mais de US$ 50 por tonelada, o diesel segue pressionado e o frete internacional acumula altas de até 20%. Isso aumenta o custo por hectare e exige mais dinheiro para plantar”. A avaliação é de Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA), ao analisar os efeitos da escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre o agronegócio brasileiro.

Segundo ele, o encarecimento não começou agora, mas se intensificou nas últimas semanas e pesa diretamente nas decisões do produtor. Em lavouras de soja e milho, o aumento dos insumos pode elevar o custo total entre 8% e 15%, dependendo do nível de investimento. “O produtor já vinha apertado. Agora, o custo sobe de novo e o preço de venda continua incerto”, afirma.

O avanço dos custos está ligado à tensão no Oriente Médio. O fechamento do Estreito de Ormuz levou o petróleo a superar US$ 111 o barril, mantendo o diesel em alta. Ao mesmo tempo, fertilizantes nitrogenados, que o Brasil importa em grande volume, ficaram mais caros e instáveis.

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Além do custo, há risco de perda de mercado. “O Irã comprou cerca de 9 milhões de toneladas de milho brasileiro em 2025. Se esse volume diminui, sobra produto aqui dentro e o preço cai”, diz Rezende.

Na logística, o impacto já aparece nos números. O frete marítimo para a Ásia subiu entre 10% e 20%, com aumento do seguro e cobrança de prêmio de risco. Na prática, isso reduz o valor pago ao produtor. “Quando o custo de levar o produto sobe, alguém paga essa conta — e parte dela volta para quem está produzindo”, afirma.

O efeito mais forte deve aparecer nos próximos meses, quando o produtor for comprar fertilizantes e fechar custos da nova safra. Se os preços continuarem elevados, será necessário mais capital para plantar a mesma área.

Para Rezende, há medidas que podem reduzir esse impacto. “O governo pode ampliar o crédito rural com juros menores, reforçar o seguro rural e alongar dívidas em regiões mais pressionadas. Um aumento de alguns bilhões na equalização de juros já ajudaria a reduzir o custo financeiro da safra”, afirma.

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Ele também aponta que o Brasil começa a dar passos para diminuir a dependência externa de insumos, mas ainda de forma insuficiente. “A retomada da produção de nitrogenados com a reativação da unidade de Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Araucária, no Paraná, ajuda, mas ainda não resolve o problema. O país continua dependente do mercado internacional, especialmente do Oriente Médio. Sem ampliar essa capacidade e melhorar a logística, o produtor segue exposto a choques externos”, conclui.

Fonte: Pensar Agro

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