AGRONEGÓCIO
Mercado opera com cautela diante das incertezas sobre o tarifaço dos EUA
Publicado em
4 de agosto de 2025por
Da Redação
O setor da soja começa a semana sob tensão, na expectativa de que o tarifaço do Trump entre em vigor nesta quarta-feira (06.08). O mercado opera com cautela diante das incertezas sobre o tarifaço, já que o presidente norte-americano já mudou de ideia várias vezes.
Segundo especialistas, o contrato futuro da soja para maio de 2026 em Chicago está 15,15% acima do valor atual. Com a cotação convertida em reais, o preço da saca projetado para o próximo ano é de R$ 132,77. A rentabilidade, mesmo com as oscilações, segue positiva: cerca de 21,47% sobre os custos médios atuais de produção.
No entanto, quem antecipou a venda da próxima safra no primeiro semestre conseguiu preços bem mais altos — em torno de R$ 156 por saca — com lucros de até 42,7%. Por isso, a recomendação dos analistas é clara: aproveitar o momento e fixar pelo menos parte da safra, evitando depender exclusivamente de projeções futuras.
A demanda internacional continua firme. A China segue comprando soja brasileira em grandes volumes, e países como Egito e México também intensificaram suas importações. A ausência da China no mercado dos EUA — agora ampliada pelo tarifaço — reforça a competitividade da soja sul-americana. Ainda assim, o mercado monitora com cautela o aumento das compras chinesas de farelo argentino, que atualmente tem preços mais baixos e menor incidência de tarifas.
No mercado interno, a situação varia por estado:
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Rio Grande do Sul: preços estáveis e vendas moderadas. A saca chegou a R$ 140 no porto. No interior, os valores variam entre R$ 132 e R$ 133, com negócios pontuais.
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Santa Catarina: gargalos de armazenagem dificultam a comercialização. A produção agrícola subiu 19% entre 2020 e 2025, mas a capacidade de armazenagem cresceu só 5,1%, gerando um déficit de mais de 800 mil toneladas. A saca foi cotada a R$ 137,99 no porto de São Francisco.
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Paraná: tentativa de equilíbrio entre interior e porto. Paranaguá pagou R$ 140,17 por saca. Em Cascavel e Maringá, os preços ficaram entre R$ 126,96 e R$ 127,22.
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Mato Grosso do Sul: vendas lentas, mas com valorização no fim da semana. Dourados, Campo Grande e Sidrolândia registraram R$ 122,42 por saca.
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Mato Grosso: exportações para a China seguem firmes, mas a infraestrutura limitada ainda é um entrave. Preços em alta moderada: Campo Verde e Primavera do Leste a R$ 120,68; Lucas do Rio Verde e Sorriso a R$ 118,07.
O mercado da soja está em um ponto de virada. De um lado, o Brasil se beneficia da maior demanda externa; de outro, enfrenta dificuldades logísticas e o risco de queda nos preços dos subprodutos como óleo e farelo. Para o produtor, o recado é direto: garantir parte do lucro agora pode ser a decisão mais segura diante de um cenário cada vez mais imprevisível.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Safra recorde já não basta para garantir rentabilidade ao produtor
Published
17 horas agoon
20 de setembro de 2026By
Da Redação
A perspectiva de uma nova safra recorde encontra o produtor brasileiro diante de um desafio que cresce na mesma proporção da produção: financiar uma atividade mais tecnológica, mecanizada e intensiva em capital, num ambiente de juros elevados, margens menores e bancos mais seletivos. O avanço do crédito privado amplia as alternativas disponíveis, mas também exige profissionalização da gestão e uma análise mais rigorosa sobre o retorno proporcionado pelo patrimônio investido.
Dados do Banco Central (BC), compilados por entidades do setor, mostram que 23,5% da carteira ativa de crédito rural apresentava algum nível de problema em julho de 2026. Eram R$ 207,5 bilhões em operações inadimplentes, atrasadas, renegociadas ou prorrogadas. O indicador não representa apenas parcelas vencidas, mas revela o aumento do estresse financeiro acumulado depois de safras afetadas pelo clima, custos elevados e preços menos favoráveis.
Ao mesmo tempo, o financiamento bancário tradicional perdeu força. Em 12 meses, o volume de crédito rural concedido sem considerar instrumentos do mercado de capitais recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. A área atendida pelas linhas convencionais de custeio caiu quase 26%, de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares.
Esse espaço vem sendo ocupado gradualmente por cooperativas, tradings, fornecedores de insumos, fundos de investimento e emissões no mercado de capitais. O estoque dos instrumentos privados de financiamento do agronegócio alcançou R$ 1,34 trilhão em julho, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Somente as Cédulas de Produto Rural (CPRs) somavam R$ 580,8 bilhões, distribuídos em aproximadamente 372 mil títulos.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), a diversificação das fontes de recursos é necessária, mas não pode ser confundida com crédito fácil ou capacidade ilimitada de endividamento.
“O crédito privado será cada vez mais importante para complementar o Plano Safra e o financiamento bancário. O produtor, porém, precisa avaliar o custo efetivo, o prazo, as garantias exigidas e a compatibilidade das parcelas com o fluxo de caixa da propriedade. Trocar uma dívida por outra mais cara, sem corrigir a origem do desequilíbrio, apenas transfere o problema para a safra seguinte”, afirma.
A necessidade de capital aumentou com a transformação da agropecuária brasileira. Produzir em escala passou a exigir máquinas de maior capacidade, agricultura de precisão, armazenagem, irrigação, conectividade, sistemas de gestão, insumos tecnológicos e equipes especializadas. A valorização das terras também elevou o volume de patrimônio imobilizado nas operações.
Essa evolução permitiu ganhos de produtividade e consolidou o Brasil entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos, fibras e energia. Mas também tornou as propriedades mais sensíveis ao custo do dinheiro. Quando os juros aumentam e as margens recuam, uma atividade pode apresentar lucro contábil e, ainda assim, não remunerar adequadamente todo o capital empregado.
É nesse ponto que ganha importância o conceito de Valor Econômico Agregado, conhecido pela sigla EVA. O indicador calcula o resultado operacional do negócio depois de descontado o custo de todo o capital utilizado, inclusive recursos próprios, terras quitadas, máquinas e demais ativos.
Uma propriedade pode encerrar o ciclo com resultado positivo no balanço, mas destruir valor se o retorno obtido ficar abaixo do que aquele patrimônio poderia render em uma alternativa de menor risco. A terra própria, por exemplo, não deixa de ter custo econômico porque está quitada. Ela representa capital que poderia ser arrendado, vendido ou aplicado em outro investimento.
“O produtor sempre acompanhou produtividade, custo por hectare e preço de venda. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não são suficientes para medir a saúde econômica do negócio. Também é necessário saber se o resultado remunera a terra, as máquinas, o capital de giro e o risco assumido durante a safra”, diz Rezende.
A aplicação dessa análise não significa abandonar investimentos ou reduzir a produção. O objetivo é identificar quais atividades, áreas e estruturas realmente geram retorno. A avaliação pode mostrar que determinado talhão produz bem, mas possui custo elevado; que uma máquina permanece ociosa; ou que o arrendamento oferece resultado melhor do que a compra de terras financiada.
O mesmo raciocínio vale para a contratação de crédito. Recursos obtidos a juros superiores ao retorno esperado pela atividade diminuem o valor econômico da propriedade, mesmo quando ajudam a ampliar o faturamento. Por isso, crescimento de receita, aumento de área e recorde de produção não significam necessariamente fortalecimento financeiro.
A busca por recursos privados também coloca a governança no centro das negociações. Instituições financeiras e investidores analisam demonstrações contábeis, histórico de produção, previsibilidade de caixa, endividamento, garantias, regularidade ambiental e fundiária, contratos e capacidade de gestão. Quanto maior a qualidade dessas informações, maior tende a ser a possibilidade de acessar diferentes fontes e negociar condições melhores.
“Governança deixou de ser uma preocupação exclusiva das grandes empresas. O produtor que conhece seus números, separa as contas da família e da propriedade, mantém documentos regulares e apresenta informações confiáveis reduz a percepção de risco. Isso melhora sua posição diante dos financiadores e permite comparar propostas sem decidir apenas pela disponibilidade imediata do dinheiro”, acrescenta Rezende.
O modelo de financiamento do agronegócio tende a permanecer híbrido. Crédito rural, recursos obrigatórios, cooperativas, tradings, fornecedores, fundos e mercado de capitais continuarão convivendo, cada um com custos, prazos e riscos diferentes. O desafio será combinar essas fontes sem comprometer parcelas excessivas da produção futura ou oferecer garantias incompatíveis com o valor da operação.
A safra recorde continua sendo uma demonstração da capacidade produtiva brasileira. Para que esse desempenho se transforme em renda, entretanto, o produtor precisará acompanhar não apenas quantas toneladas colhe, mas quanto valor permanece depois de remunerados todos os recursos utilizados. Em uma agricultura intensiva em capital, produzir mais é importante; produzir com retorno econômico tornou-se decisivo.
Fonte: Pensar Agro
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