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Congresso Internacional aprofunda debates sobre precedentes, Direito Comparado e gestão de processos

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O primeiro dia do Congresso Internacional de Precedentes também foi marcado por discussões sobre Direito Comparado e pela aplicação prática da inteligência artificial no Judiciário, reunindo especialistas nacionais e internacionais para analisar os desafios contemporâneos da gestão de precedentes e das demandas repetitivas.

A professora doutora Sabrina Ragone, da Universidade de Bolonha, na Itália, apresentou o segundo painel do dia, com o tema “O precedente judicial nos sistemas de civil law: persuasão ou vínculo fático?”. Na mesa de debates estiveram presentes o desembargador do TJMT, Rodrigo Curvo, como presidente, o juiz auxiliar da Ouvidoria do TJMT, Bruno D’Oliveira Marques, como debatedor, e o promotor de Justiça do MPMT, Carlos Eduardo Silva, também como debatedor.

A jurista trouxe a perspectiva do Direito Comparado para analisar o papel dos precedentes nos diferentes sistemas jurídicos. “A pergunta que procurei responder foi até que ponto o precedente judicial é algo próprio apenas dos sistemas de common law ou se também está presente nos sistemas de civil law, e como ele se relaciona com as tradições jurídicas, com a cultura jurídica e com os sistemas de formação jurídica de diferentes países”, explicou.

Segundo Sabrina Ragone, os estudos comparados demonstram que o papel do precedente não pode ser analisado de forma isolada, sem considerar fatores institucionais e culturais. “Para um comparatista, a solução quase nunca é universalmente válida. É necessário levar em conta o sistema de fontes, a forma de governo, além de muitos elementos culturais, contextuais, históricos e políticos”, afirmou.

A professora também ressaltou a relevância da cooperação internacional para enfrentar problemas jurídicos contemporâneos. “O trabalho em rede entre instituições acadêmicas de diferentes países e entre instituições acadêmicas e judiciais, sobretudo com a América Latina e, em especial, com um país como o Brasil, é hoje essencial”, destacou.

Na palestra, Sabrina Ragone explicou que, nos sistemas de civil law, a concepção dominante ainda é a de que não existe precedente vinculante propriamente dito, mas sim precedentes dotados de força persuasiva. “A ideia dominante nos sistemas de civil law continua sendo a de que não existe precedente vinculante propriamente dito, mas sim precedentes com força persuasiva”, pontuou.

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Ela observou, entretanto, que essa força pode se aproximar, na prática, de um verdadeiro vínculo, sobretudo quando as decisões partem dos tribunais superiores e apresentam coerência ao longo do tempo. Para a professora, o precedente também desempenha papel relevante na formação dos profissionais do Direito e na própria cultura jurídica de cada país.

Inteligência Artificial, precedentes e gestão de processos

O último painel do primeiro dia do congresso trouxe para o centro do debate a aplicação prática da tecnologia no Judiciário, com foco na gestão de precedentes e no enfrentamento das demandas repetitivas. O tema “IA, precedentes e gestão de processos” foi apresentado pelo professor doutor Dib Karam Junior, da EACH-USP, e pelo juiz Antônio Veloso Peleja Júnior, juiz auxiliar da Vice-Presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e coordenador pedagógico da Esmagis.

Em sua participação, Dib Karam destacou que a utilização da inteligência artificial no sistema de Justiça precisa estar associada à confiabilidade, à transparência e à supervisão humana. “A inteligência artificial generativa associada à computação clássica precisa ter visibilidade e segurança jurídica, porque, senão, a inteligência artificial não presta um serviço, presta um desserviço ao sistema judiciário”, afirmou.

O professor também ressaltou a importância institucional da iniciativa do Tribunal de Justiça de Mato Grosso em promover um evento internacional sobre o tema. “A iniciativa é extremamente louvável, magnífica e magnânima, e o Tribunal de Justiça do Mato Grosso tem se lançado à frente de todos os tribunais do país, inclusive como referência do CNJ”, declarou.

O juiz Antônio Veloso Peleja Júnior apresentou o Projeto MAPA, uma ferramenta de inteligência artificial voltada à identificação e à gestão de demandas repetitivas no âmbito do Judiciário.

Segundo o magistrado, a proposta é utilizar a tecnologia para auxiliar na formação e na gestão dos Incidentes de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR), a partir da leitura e comparação automática de processos. “Esse projeto vai possibilitar a leitura e comparação de peças processuais e identificar similaridades semânticas em argumentos e pedidos, para agrupar processos que tratam da mesma questão de direito”, afirmou.

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O juiz ressaltou que o uso da inteligência artificial não substitui a atuação humana. “A máquina vai fazer com uma rapidez muito maior, mas é necessário que haja supervisão, curadoria e validação do ser humano”, destacou.

De acordo com Antônio Peleja, o objetivo central da ferramenta é contribuir para a eficiência do Judiciário e para a segurança jurídica. “A palavra-chave aqui é gestão e a outra palavra-chave é gerenciamento. Quando nós temos um grande número de processos com decisões conflitantes, é necessário um método de governança, previsibilidade e segurança jurídica”, afirmou.

Para o magistrado, a incorporação da inteligência artificial representa um novo passo na forma de tratar a litigiosidade em massa. “A solução não é mais fazer mais do mesmo, mas transformar a forma como o Judiciário vai identificar e tratar a litigiosidade repetitiva”, concluiu.

Homenagens

Durante o evento, receberam a Medalha “Comenda Desembargador João Antônio Neto”, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao meio jurídico e acadêmico e às contribuições expressivas ao fortalecimento das instituições judiciais, os seguintes professores(as) doutores(as): Professor Doutor Francesco Viganò; Professora Doutora Simone Trento; Professora Doutora Sabrina Ragone; Professor Doutor Dib Karam Junior e Professor Doutor Thiago Lopes Matsushita.

Acesse as fotos no Flickr do TJMT

A Esmagis também conferiu o título de Professor Notável da Instituição, em razão dos relevantes trabalhos científicos e acadêmicos prestados à Escola da Magistratura, ao Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso e à comunidade jurídica, ao Professor Doutor Dib Karam Junior; Professor Doutor Francesco Viganò; Professora Doutora Sabrina Ragone e Professora Doutora Simone Trento.

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Autor: Roberta Penha

Fotografo: Alair Ribeiro

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Lei Maria da Penha: magistradas do TJMT destacam avanços, desafios e a luta para salvar vidas

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Close de uma mão com um X vermelho desenhado na palma, símbolo de combate à violência contra a mulher. Ao fundo, outra mão e manga de blusa cinzaA cada mulher que rompe o silêncio, uma história de coragem se sobrepõe ao medo. Há 20 anos, a Lei Maria da Penha passou a oferecer instrumentos concretos para proteger vítimas de violência doméstica e familiar, transformando a forma como o Brasil enfrenta um problema que, por muito tempo, permaneceu invisível dentro dos lares. Apesar dos avanços conquistados desde então, magistradas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) alertam que a mudança cultural ainda é o maior desafio para impedir que novas mulheres tenham suas vidas interrompidas pela violência.

A juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, que atuou por muitos anos na 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e atualmente responde pela 2ª Vara Especializada de Família e Sucessões, destaca que a legislação representou uma mudança histórica ao reconhecer diferentes formas de violência contra a mulher e criar mecanismos de proteção mais efetivos.

Segundo ela, além de ampliar o conceito de violência doméstica para incluir as agressões psicológica, sexual, patrimonial e moral, a Lei Maria da Penha instituiu medidas protetivas com análise prioritária, fortaleceu a punição aos agressores e criou varas especializadas com equipes multidisciplinares e atuação integrada com a rede de proteção.

A juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, titular da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra aMulher de cabelos longos e escuros veste jaqueta branca sobre blusa amarela com detalhes em azul, semblante alegre, olha para o lado. Ao fundo, vegetação desfocada Mulher de Cuiabá, também aponta a visibilidade dada ao problema como um dos maiores legados da legislação.

“Um dos principais avanços foi, principalmente, a visibilidade da violência doméstica contra a mulher. Hoje, nós conseguimos entender que não se trata de um problema no âmbito privado, como se entendia no passado, mas ela se tornou o centro do debate público. Hoje, nós discutimos não apenas a violência física, mas também a violência psicológica, moral, patrimonial, sexual e, mais recentemente, a violência vicária”, afirma.

Para a magistrada, dar visibilidade ao problema também permite produzir estatísticas e direcionar políticas públicas voltadas à prevenção e ao acolhimento das vítimas.

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Desafio permanente

Mesmo após duas décadas da Lei Maria da Penha, as duas magistradas concordam que a violência doméstica não será combatida apenas com a aplicação da legislação.

Mulher de cabelos longos e loiros, veste blazer preto rendado sobre blusa branca e colar dourado, sorri em ambiente iluminado. Ao fundo, plantas e estrutura de vidroPara a juíza Ana Graziela, trata-se de um problema social e estrutural. “A violência doméstica e familiar contra a mulher, para além de um problema judicial, é um problema social e estrutural. Esse é o maior desafio, a mudança social e estrutural do que gera e fomenta essa violência, não bastando a aplicação correta da lei para findar a violência e proteger as vítimas. Por isso se mostra tão importante a articulação em rede”, ressalta.

A magistrada observa ainda que nos últimos anos houve aumento das denúncias envolvendo violência psicológica e patrimonial, impulsionado pelo maior conhecimento sobre os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, o crescimento dos casos de feminicídio em Mato Grosso preocupa o Judiciário, que busca identificar fatores de risco para fortalecer as ações preventivas.

Na mesma linha, a juíza Tatyana lembra que o aumento das penas para feminicídio representa uma resposta importante do Estado, mas não é suficiente para mudar uma realidade construída ao longo de gerações. “Infelizmente, como a gente vê que isso não é um problema só legislativo, é um problema cultural, mesmo com a implantação da lei, no ano passado nós tivemos um aumento de feminicídio”, afirma.

Rede que protege

As magistradas destacam que nenhuma instituição consegue enfrentar a violência doméstica sozinha.

Ana Graziela defende investimentos permanentes em políticas públicas, fortalecimento das Delegacias Especializadas, ampliação da Patrulha Maria da Penha, atendimento psicológico e ações que promovam a autonomia financeira das mulheres. Para ela, a atuação integrada da rede é indispensável para garantir proteção efetiva às vítimas.

Tatyana reforça que o trabalho em rede também precisa olhar para o futuro, apostando na educação como instrumento de transformação social.

Ela cita iniciativas desenvolvidas pelo Poder Judiciário, como o projeto Lei Maria da Penha Vai às Escolas e o A Escola Ensina, a Mulher Agradece, que levam o debate sobre respeito, igualdade e prevenção da violência às salas de aula. “Por meio da educação, a gente pode transformar essa cultura de violência para uma cultura de respeito”, afirma.

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Romper o silêncio salva vidas

Outro ponto destacado pelas magistradas é a importância da denúncia e das medidas protetivas de urgência.

Segundo Tatyana, Mato Grosso concede medidas protetivas em poucas horas, um dos melhores desempenhos do país. Ela ressalta que esses mecanismos têm papel fundamental na preservação da vida das mulheres. “As medidas protetivas realmente salvam vidas. No ano passado foram quase 20 mil medidas protetivas deferidas dentro do nosso estado. Milhares de mulheres estão protegidas por medidas protetivas e é de forma célere”, destaca.

Às mulheres que ainda enfrentam situações de violência, Ana Graziela deixa uma mensagem de acolhimento. “Procurem ajuda, seja de familiares, amigos ou ajuda especializada, se informem sobre os seus direitos, sobre as medidas de proteção que podem lhes ser deferidas e sobre as ações judiciais e sociais que podem ser adotadas”, orienta, lembrando que o Tribunal de Justiça de Mato Grosso disponibiliza atendimento psicológico, social e diversas ações de apoio por meio do Centro Especializado de Atendimento às Vítimas (CEAV).

Tatyana faz um apelo semelhante e reforça que a denúncia deve vir acompanhada de uma rede de apoio. “O que eu diria para essa mulher é que ela procure primeiramente uma rede de apoio. Se for uma situação de emergência, realmente vá até uma delegacia especializada da mulher e ofereça essa denúncia. A partir desse momento em que ela procura essa ajuda inicial, serão feitos os encaminhamentos necessários para que ela possa realmente romper com esse ciclo da violência”, conclui.

Roberta Penha

Josi Dias e Rodrigo Moura

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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