Tribunal de Justiça de MT
Da violência psicológica à reconstrução de uma vida com propósito e ajuda do Judiciário de MT
Publicado em
22 de agosto de 2025por
Da Redação
“Eu fui ao inferno e voltei”. A declaração, que resume uma jornada de superação da violência psicológica, é de Jennifer Surita, de 39 anos. Sua história, marcada pela dor e pelo isolamento, culminou numa busca por ajuda que a levou ao Centro Especializado de Atenção às Vítimas de Crimes e Atos Infracionais (CEAV) do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em Cuiabá, um apoio fundamental para que ela pudesse reencontrar sua identidade e inspirar outras mulheres. Sem medo nem vergonha de se identificar e mostrar o rosto, ela é uma das muitas pessoas acompanhadas pela equipe multidisciplinar do CEAV, que funciona no Fórum da Comarca de Cuiabá e que durante a Semana Justiça pela Paz em Casa, intensifica as ações de conscientização e combate contra a violência doméstica e familiar.
Jennifer faz questão de contar sua história para encorajar outras mulheres a romperem o ciclo de violência, mudarem de vida, e o mais importante, preservar sua própria vida. “O resgate humano que é oferecido pela equipe do Ceav é maravilhoso. A gente vê essas mulheres que nos inspiram a querer ser uma pessoa melhor e ter um padrão de vida melhor. Eu não tinha essa vontade antes, eu achava que era só trabalhar, pagar as contas do dia. Hoje quero ser uma mulher grande. Tenho sonhos de novo.”
Embora o CEAV atenda pessoas vítimas de crimes e atos infracionais de qualquer natureza, das quase duas mil pessoas atendidas entre janeiro e junho de 2025, 90% foi de mulheres em situação de violência doméstica e familiar, um público considerado mais vulnerável.

Jennifer conheceu seu ex-marido há sete anos. No início, ele era tudo o que ela poderia desejar em um parceiro: cativante, bondoso, educado, prestativo e com os mesmos objetivos de vida. Ele a cortejou de maneira calculada, estudando seus gostos e interesses, e aos poucos foi se tornando uma figura onipresente em sua vida. Jennifer, nascida em Corumbá (MS), mas criada em Cuiabá desde os dois anos, descreve-o como um homem charmoso, bem-sucedido e aparentemente religioso, que usava sua comunicação e postura para encantar a todos.
“Ele me estudou para poder me conquistar. Era muito educado, muito respeitoso. Ele tem uma ótima fachada de ser humano, mas no relacionamento… ele me confessou que sentia prazer em fazer aquilo comigo.”
A ascensão da violência e a descoberta da abusividade
O ciclo de violência começou após o casamento e a gravidez do primeiro dos três filhos do casal. O comportamento do marido mudou drasticamente. Ele se tornou paranoico, ciumento e controlador. Jennifer conta que ele via coisas onde não existiam, criando discussões por motivos banais, como um olhar no mercado ou a presença de amigos em um churrasco familiar.
“A palavra dele sempre era que eu estava louca,” diz Jennifer. Ele a criticava constantemente, desvalorizava suas conquistas e falava que ela não teria sorte em encontrar um homem melhor do que ele. Tudo o que a fazia feliz era motivo para ser desqualificado, desde um novo corte de cabelo até uma simples roupa. O objetivo era minar sua autoestima e isolá-la. Ele a afastou de amigos e, com a chegada do bebê, a convenceu a largar o trabalho, tornando-a financeiramente dependente.
A pandemia de COVID-19 intensificou a violência, quando a família se mudou para o Pará. Foi lá, assistindo TV, que Jennifer ouviu uma atriz descrever a violência psicológica e reconheceu todos os sinais em sua própria vida. “Nossa! Eu estou vivendo isso! Foi o que falei quando me identifiquei com o que a atriz estava falando”, lembra.
A declaração de Jennifer ilustra a importância de campanhas contra a violência doméstica e todas as ações desenvolvidas pelo poder público
A luta pela separação e a batalha legal
Jennifer demorou cerca de dois anos para tomar a decisão de se separar, mesmo após a descoberta da violência. Ela tentou de tudo, inclusive buscou ajuda na igreja, acreditando que o problema era algo espiritual e que ele poderia mudar. “Ir pra a igreja só prolongou o sofrimento, porque eu não me decidia, pensando que era a vontade de Deus estar com ele”. Quando finalmente decidiu pela separação, o marido não aceitou e começou a usar os filhos como instrumento de controle.
A situação culminou num incidente grave, quando ele a seguiu até ele chegar na Delegacia das Mulheres de Cuiabá e tentou passar com o carro por cima dela. Ela registrou então, o primeiro de três boletins de ocorrência, que foram necessários para que ele entendesse a seriedade da lei. Apesar da resistência, o agressor foi confrontado por seus advogados, que o alertaram sobre as consequências de suas ações. “Se tem uma lei que funciona é a lei da mulher,” disseram a ele.
A reconstrução de uma vida
Após o fim do relacionamento abusivo, Jennifer se viu com a vida e a autoestima destruídas. Ela tinha pensamentos suicidas e a sensação de que estava vivendo em “piloto automático”, como se seu corpo existisse, mas sua alma estivesse morta.
Foi no Ceav que ela encontrou o suporte necessário para recomeçar. Jennifer relata que a equipe a acolheu de forma calorosa e profissional, oferecendo apoio psicológico e orientação. “O trabalho das meninas é ótimo, muito acolhedor. Eu cheguei aqui com a mente destruída.”
O atendimento psicológico foi um passo fundamental. Jennifer, hoje com 39 anos e mãe de cinco filhos no total (dois adultos, dois adolescentes e três crianças com o ex-marido), começou a se reconstruir, a retomar seus estudos e a ter novamente vontade de viver. Ela também encontrou uma nova fonte de renda, trabalhando com vendas e participando de feiras organizadas pela própria unidade do Fórum, como a feira da Semana Justiça pela Paz em Casa, realizada durante toda a semana em Cuiabá. Além do apoio psicológico, Jennifer destaca a importância do curso de autodefesa pessoal oferecido na unidade. “É muito importante, é muito sério. A gente não é invencível, a gente precisa de ajuda”.
Planos, recomeços e uma missão
Hoje, Jennifer se sente 80% reconstruída. Ela faz faculdade de marketing EAD, planeja estudar inglês e sonha em fazer um intercâmbio no exterior. Embora ainda sinta receio de iniciar novos relacionamentos, ela está focada em seu processo de recuperação e nos filhos. “Cada lugar que entro, sempre vai haver uma mulher que passou por isso, e eu posso ajudá-la com palavras, com indicação de lugares como o CEAV, para que ela seja acolhida e possa recomeçar como eu pude.”
A história de Jennifer é um testemunho de que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, é possível encontrar forças para recomeçar. Sua vida é a prova de que a reconstrução é um processo gradual e de que a ajuda profissional é fundamental para que as vítimas de violência recuperem a autoestima e o direito de viver com dignidade. Como ela mesma diz, “é difícil, mas não é impossível”, afirma a juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, coordenadora do CEAV e titular da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá.
CEAV Cuiabá
O Centro foi criado para prestar apoio e atenção a pessoas que sofreram danos físicos, morais, patrimoniais ou psicológicos em decorrência de crimes ou atos infracionais e funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h, no Fórum de Cuiabá. Também atende por WhatsApp pelo número: (65) 9 99247-1462.
Em Cuiabá, foram realizados 4.099 atendimentos entre agosto de 2024 e julho de 2025. Embora atenda a todos os públicos, cerca de 90% dos casos são relacionados à violência doméstica e familiar contra mulheres. A juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, coordenadora do Ceav, explica que essas vítimas demandam atenção especial, pois a violência é frequentemente cometida por pessoas próximas e se repete por anos, tornando o processo de recuperação mais complexo.
O Fórum de Várzea Grande também abriga um CEAV, que funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h. O WhatsApp do CEAV VG é (65) 3688-8404.
Autor: Marcia Marafon
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
“Selo Imprensa por Elas” destaca adesão de veículos de comunicação e busca proteger mulheres
Published
13 horas agoon
16 de abril de 2026By
Da Redação
O troféu e o “Selo Imprensa Por Elas”, entregues aos 27 veículos de comunicação presentes no “Café com a Imprensa – Diálogo e Proteção à Mulher”, marcam o início de novas ações de enfrentamento à violência de gênero a serem desenvolvidas pelo Poder Judiciário de Mato Grosso. O evento, realizado nesta quarta-feira (15) no Tribunal de Justiça, em Cuiabá, foi o primeiro passo para jornalistas e magistrados construírem juntos um protocolo de cobertura jornalística que proteja as vítimas da violência doméstica e feminicídio.
“Podemos juntos fazer uma transformação cultural. Precisamos do apoio e da parceria dos meios de comunicação para evitar que mais mulheres sejam mortas em seus ambientes íntimos. Esse encontro foi essencial para ouvirmos as dúvidas e sugestões dos profissionais presentes e debatermos questões sensíveis”, ressaltou a coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), desembargadora Maria Erotides Kneip.
Durante o café, foi distribuído o “Guia Rápido –Jornalismo que protege e dignifica” como primeira minuta de um trabalho maior a ser construído, conforme a juíza Ana Graziela Vaz de Campos, membro da Cemulher e vice-presidente do Fórum Nacional de Juízes e Juízas (Fonavid).
“O ‘Selo Imprensa Por Elas’ destaca os veículos que investem na qualificação de suas equipes e na melhora contínua da cobertura responsável dos casos de violência doméstica. Desse diálogo, vamos construir juntos um protocolo de cobertura jornalística para evitar o chamado efeito copycat, quando se divulga a forma como ocorreu o feminicídio e um caso gera outros similares”, pontuou.
Para a desembargadora Gabriela Knaul Albuquerque, a iniciativa tem como objetivos a “proteção da dignidade das mulheres, a prevenção da revitimização e o estímulo a práticas que contribuam para a responsabilização e reeducação de agressores, inclusive por meio de Grupos Reflexivos”.
Durante o evento, o delegado do Distrito Federal Marcelo Zago trouxe dados de pesquisa científica sobre os impactos da cobertura midiática sobre o assunto, bem como da violência de gênero e feminicídios.
Também estavam presentes o presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira; os desembargadores Márcio Vidal e Jonnes Gattas; o secretário-geral do Tribunal de Justiça, juiz Agamenon Alcântara Moreno; a juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, que preside a Rede de Enfrentamento de Cuiabá; além dos juízes Marcos Terencio Agostinho Pires, de Cuiabá; Leonísio Salles de Abreu Júnior, de Chapada dos Guimarães; Rosângela Zacarkim, de Sinop; Suelen Barizon Hartmann, de Tangará da Serra; Djessica Giseli Kuntzer, de Pontes e Lacerda; Juliano Hermont Hermes da Silva, de Várzea Grande; Luciana Sittinieri Leon, de Rio Branco e Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, de Barra do Garças.
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Autor: Lídice Lannes
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
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