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Tecnologia a serviço da paz: Sistema do TJMT fortalece a Justiça Restaurativa em Mato Grosso

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Um sistema inovador vem transformando a forma como a Justiça Restaurativa é aplicada em Mato Grosso. Trata-se do Sistema NUGJUR de Gestão de Facilitadores, desenvolvido pelo Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (NUGJUR), em parceria com a Coordenadoria de Tecnologia da Informação (CTI), do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). A ferramenta permite o registro, o acompanhamento e a análise de dados em tempo real sobre os Círculos de Construção de Paz realizados nas comarcas do interior do Estado.

Cada facilitador possui um cadastro individualizado para acessar o sistema e é responsável por alimentar o banco de dados com informações das práticas desenvolvidas. A partir dos registros, a plataforma gera relatórios analíticos em tempo real, que são utilizados pelo NUGJUR para monitorar o desempenho das ações em todo o estado e oferecer suporte à tomada de decisão.

Pode-se dizer que três grandes inovações marcam o potencial de gestão do programa: a disponibilização, em tempo real, do Termo de Comunicação de Revelação Espontânea de Violação de Direitos da Criança; a gestão dos processos judiciais decorrentes da realização de Círculos de Construção de Paz Mais Complexos; e o tratamento de dados por meio da ferramenta de Business Intelligence (BI).

Segundo o assessor de Relações Institucionais do NUGJUR, Rauny Viana, idealizador do programa, um dos principais diferenciais do sistema, em comparação com outras iniciativas de gestão de dados da Justiça Restaurativa, é sua capacidade de integrar as diferentes etapas do processo restaurativo, incluindo a articulação com a rede local de proteção à criança e ao adolescente.

“O maior benefício do sistema, além da compilação de dados e da união de esforços entre a rede de proteção à criança e ao adolescente, é a gestão dos programas restaurativos municipais e os atores extrajudiciais que podem dialogar, desenvolver ideias e tomar decisões a partir dessas contribuições, é a sua capacidade de oferecer uma gestão administrativa, quantitativa e qualitativa. Os dados inseridos no sistema permitem aprimorar a condução dos processos e subsidiar decisões futuras no âmbito da política restaurativa, tanto em nível local, nos espaços municipais, quanto em nível estadual, como é o nosso caso”, explicou Rauny.

O Termo de Comunicação de Revelação Espontânea de Violação de Direitos da Criança foi criado pelo Programa “Eu e Você na Construção da Paz”, desenvolvido pelo município de Campo Verde, a partir da Lei Municipal nº 2866/2022, que instituiu o programa como política pública de pacificação nas escolas.

Quando, durante ou após um círculo de paz, uma criança ou adolescente relata uma situação de violação de direitos, cabe ao facilitador registrar a ocorrência exclusivamente por meio do formulário eletrônico disponível no Sistema NUGJUR. Esse registro deve ser objetivo, limitado aos campos previstos no formulário, sem a inclusão de juízos de valor ou descrições detalhadas da fala da criança. Nele, o facilitador informa o tipo de violência relatada, como exploração sexual, abuso sexual, negligência emocional ou física, violência física ou psicológica, e indica se a situação ocorreu no presente ou no passado. O sistema utiliza uma classificação por cores que permite assinalar a gravidade da ocorrência, variando de azul, para situações menos graves, até vermelho, para as mais graves.

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Uma vez preenchido, o formulário é automaticamente direcionado ao Núcleo Gestor Municipal do Programa, que tem a atribuição de realizar as averiguações necessárias, seguindo os protocolos de encaminhamento estabelecidos. É importante destacar que o termo de comunicação fica restrito ao Núcleo Gestor, enquanto o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) local apenas recebe a informação sobre a existência da comunicação, mas não tem acesso ao conteúdo detalhado do termo. Após o encaminhamento realizado pelo Núcleo Gestor, o facilitador não acompanha mais o trâmite da ocorrência, sendo informado apenas se a demanda foi ou não atendida.

No contexto escolar, quando a violação relatada ocorreu dentro da instituição, a própria escola é informada por meio do representante que integra a composição do Núcleo Gestor, assegurando que a comunicação chegue de forma institucional e adequada. Se, entretanto, a violência ocorrer em tempo real durante o círculo, cabe à escola acionar imediatamente seus protocolos internos, conforme previsto em lei. Dessa forma, o papel do facilitador fica limitado ao preenchimento do formulário no sistema, garantindo o fluxo adequado de informações sem sobreposição de funções ou exposição indevida das partes envolvidas.

Na avaliação da desembargadora Clarice Claudino da Silva, presidente do NUGJUR, a informatização dos dados e a possibilidade de acessá-los com apenas um clique garantem visibilidade ao trabalho da Justiça Restaurativa em Cuiabá e nas demais comarcas, além de chancela à credibilidade das ações.

“A possibilidade e a autonomia de termos dados refinados, na velocidade de alguns cliques, conferem credibilidade a todo o trabalho desenvolvido até aqui. Isso apenas confirma que a decisão de priorizar a Justiça Restaurativa durante a nossa gestão à frente da presidência [do Poder Judiciário] foi acertada, garantindo a continuidade dos trabalhos. Essa experiência nos faz refletir que, na vida, há o tempo da semeadura, o tempo de escolher as boas sementes e o tempo de adubar. E que ideias e ideais só se tornam realidade com pessoas”, se orgulhou a desembargadora.

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Nos processos judiciais, os círculos de maior complexidade, voltados ao atendimento de situações conflitivas, são conduzidos por facilitadores judiciais e geridos pelo Sistema NUGJUR, que inova ao permitir a assinatura digital, facilitando o atendimento remoto do cidadão e assegurando que documentos obrigatórios sejam formalizados e anexados ao processo de origem.

A medida assegura que o processo judicial tradicional seja derivado para a Justiça Restaurativa, cumprindo o papel de promover, quando possível, a resolução de conflitos e a restauração das relações por meio do diálogo, de forma ágil e segura, garantindo a efetividade da política restaurativa.

O sistema abrange todas as etapas do procedimento, incluindo o pré-círculo, onde são identificadas as partes e colhidas as informações iniciais do processo; o círculo restaurativo, onde se constrói o diálogo entre as partes; e o pós-círculo, realizado para acompanhar o cumprimento do acordo. Em cada fase, os facilitadores registram no sistema os dados correspondentes e os documentos obrigatórios, que são assinados pelos participantes e anexados eletronicamente. A formalização do acordo, quando existente, também é registrada no sistema e juntado ao processo de origem, garantindo uma resposta ágil à autoridade responsável pela derivação.

Outro destaque do sistema é a ferramenta de Business Intelligence (BI), que permite a extração de relatórios personalizados com indicadores de impacto, como faixa etária atendida, tipo de conflito, cumprimento de acordos, órgãos envolvidos e número de práticas por comarca. Essas informações são cruciais para o planejamento de políticas públicas mais eficazes e para a ampliação das ações restaurativas no estado.

“Com a iniciativa, o TJMT se posiciona como referência nacional no uso de tecnologia para promoção da justiça e construção de uma cultura de paz. É com base nesses indicadores que conseguimos enxergar gargalos, detectar territórios com maior vulnerabilidade, compreender onde a política está sendo mais ou menos disseminada e dialogar com os gestores para o fortalecimento das práticas. O sistema informatizado dá suporte, organiza dados, garante rastreabilidade, mas é a escuta qualificada, o vínculo com a comunidade e o compromisso com a reparação que fazem a Justiça Restaurativa acontecer. O potencial das relações humanas nunca será substituído”, concluiu Rauny.

Autor: Naiara Martins

Fotografo: Alair Ribeiro

Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

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Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

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Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

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Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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