Tribunal de Justiça de MT
Lili de Grammont transforma a dor de uma órfã do feminicídio em força para salvar vidas
Publicado em
10 de dezembro de 2025por
Da Redação
Tinha apenas dois anos quando sua mãe, a cantora Eliane de Grammont, foi assassinada a tiros pelo pai, o cantor Lindomar Castilho, o “rei do bolero” que embalou os anos 70 com sucessos românticos como “Você é Doida Demais”. Na tarde desta quarta-feira (10), Lili de Grammont, hoje bailarina, coreógrafa e ativista, trouxe sua história de dor e superação para o palco do II Encontro das Redes de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, realizado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso nos dia 10 e 11/12, comovendo a plateia com a palestra “Órfã do feminicídio: Transformando a dor em força”.
O crime que chocou o Brasil aconteceu na madrugada de 30 de março de 1981. Eliane cantava no café Belle Époque, em São Paulo, quando Lindomar Castilho invadiu o local e disparou cinco tiros contra a ex-mulher, matando-a no palco.
Por quatro anos, enquanto o julgamento se arrastava, a família protegeu a menina da verdade. “Para me proteger, eles não me contaram detalhes sobre a morte da minha mãe. Eu sabia que ela tinha morrido, mas não sabia como nem por quem. Na minha cabeça infantil, eu pensei: ‘Foi um ladrão que matou minha mãe’ “, relembrou.
A revelação veio de forma intempestiva, através de uma prima da mesma idade durante uma festa de família. “Você é boba, nem sabe que foi seu pai que matou sua mãe”, disse a criança. “Foi uma prima minha que chegou e disse isso. Essa foi a forma pela qual eu descobri, de um jeito nada legal”, contou Lili, emocionada.
O amor e a culpa da criança
O impacto da descoberta foi devastador. “Essa é uma grande dificuldade dos órfãos do feminicídio. Muitos autores de violência são pais que, para a sociedade, parecem perfeitos. Eles centralizam a violência apenas na mulher, e a filha ou filho fica apaixonado por eles. Eu era apaixonada por meu pai como filha, e ao mesmo tempo acompanhava o sofrimento da minha avó e da família durante o julgamento”, explicou.
Lili descreveu aquele momento como uma morte simbólica. “O dia em que eu descobri foi o dia que, emocionalmente, meu pai ‘morreu’ para mim. Eu senti que a morte deles estava ligada: minha mãe matou meu pai, numa frase que soltei na terapia, um ato falho que me ajudou a entender que os homens também morrem quando matam.”
Da dor nasceu uma ativista
Durante anos, Lili evitou falar sobre o assunto. “Por muito tempo, eu queria ser só eu mesma, a Lili, e não a filha do Lindomar e da Eliane”, confessou. A transformação veio gradualmente, quando percebeu o impacto de sua história na vida de outras pessoas.
“Um dia, num grupo de mulheres, acabei fazendo uma palestra, que não chamei assim, foi um depoimento da minha vida. Percebi o impacto daquele relato genuíno, que pensei em fazer diferente. De depoimento, virou palestra, e eu comecei a ser indicada para outros lugares”, relatou.
Na palestra desta quarta-feira, Lili foi direta ao apresentar-se. “Eu não chamo isso de palestra, eu chamo de um relato pessoal. É a forma que encontrei para que os fatos e a realidade toquem o coração e, além de não desmobilizar emocionalmente as pessoas, sirva como um chamado à ação.”
A cura que vem da palavra
Falar publicamente sobre o trauma tem sido parte fundamental do processo de cura. “Sim, falar é o primeiro passo para a cura, porque ninguém sai dessa sozinho. Para o órfão de feminicídio, a morte da mãe é o fim para ela, mas o começo de uma jornada para uma criança, muitas vezes marcada pelo medo de amar”, explicou Lili.
A ativista revelou que teve dificuldade até para decidir ser mãe. “Foi difícil até decidir ser mãe e trabalhar para que meu filho saiba o que é amor de verdade e não repita padrões. Tenho um companheiro que também reflete sobre masculinidade e machismo estrutural. Cada vez que falo, estou me reorganizando, ressignificando a memória e tendo esperança”, disse.
A dança se tornou sua válvula de escape e ferramenta de cura. Hoje bailarina profissional, coreógrafa e diretora de uma companhia, Lili criou o espetáculo “Casa de Vidro” para falar sobre violência psicológica e os primeiros sinais de violência doméstica. Também escreveu o livro “Uma Escada para o Ar”, que representa a busca por se conectar com a mãe pela memória e pela superação.
Políticas públicas
Sobre a questão das políticas públicas brasileiras em relação à violência contra a mulher, Lili foi enfática ao apontar a prevenção como a maior lacuna. “Falta muita coisa, mas para mim, o mais urgente são as medidas de prevenção. Hoje, temos delegacias, casas da mulher para denúncia, mas investimos pouco na prevenção real”, avaliou.
Os dados são alarmantes: o Brasil registra mais de 2 mil crianças órfãs por ano cujas mães foram vítimas de feminicídio. “Muitas vezes, essas crianças ficam com as avós enlutadas, e a violência se multiplica. As redes de apoio existem, mas não são fortificadas pelas políticas públicas, e ainda dependem muito de trabalho voluntário, com poucos recursos”, alertou.
Lili criticou a ausência de políticas específicas para órfãos do feminicídio. “Sobre órfãos do feminicídio, não temos políticas públicas específicas, nem centros especializados. O que tem é uma pensão da mãe morta, dividida entre os filhos, valor insuficiente para garantir as necessidades básicas”, pontuou.
Lili fez um chamado especial aos homens presentes no evento. “Convido especialmente os homens aqui presentes a caminhar conosco nessa jornada. Porque também não é fácil a carga que vocês carregam. Precisamos que homens, que estão ao nosso lado, entendam que lavar a louça não é ajudar a mulher, é cuidar da casa.”
O perdão como libertação
Sobre a relação com o pai, hoje com 85 anos, Lili revelou que mantém contato e, junto com a irmã, cuida dele. “Eu e minha irmã, que é de outro relacionamento dele, nos revezamos nos cuidados”, contou. Quanto ao perdão, a resposta é complexa. “Sobre perdoar, eu sempre digo que é sim e não. Não tem volta, não é simples apagar tudo. Eu tento ampliar meu campo de visão para entender que ele é fruto de uma estrutura cultural machista”, refletiu.
Lili apontou como a cultura da época alimentava a violência. “Por exemplo, a música que outro cantor famoso cantava na época da morte da minha mãe dizia: ‘Se te pego com outro, te mato…’ e isso era algo que refletia a cultura daquela época. Esse comportamento possessivo foi alimentado pela cultura, que endossa o controle da mulher e a violência.”
A ativista concluiu com um desejo: “Gostaria de poder voltar no tempo para mostrar para o pai que isso destruiria a vida dele também, porque, ao matar minha mãe, ele destruiu a vida dele, dela e da família. Essa fúria é vingança contra o próprio agressor, não só uma vítima.”
Legado de Eliane
O crime que vitimou Eliane de Grammont foi um marco na luta contra a violência de gênero no Brasil. Após sua morte, em 1982, surgiu a primeira Delegacia da Mulher do país. Nos anos 1990, foi criada em São Paulo a Casa Eliane de Grammont, que oferece atendimento a vítimas de violência sexual e doméstica.
Ao final de sua fala, Lili deixou uma mensagem de esperança. “Reforço: o amor cura, e o amor se manifesta através do cuidado, do respeito e da ação conjunta. Eu acredito no ser humano, na alegria e na paz. Convido todos a se emocionar, a não ter medo da própria emoção. Vamos provar juntos que é possível uma convivência saudável e respeitosa, o fim da violência e o florescer do amor verdadeiro.”
Confira também:
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Tribunal de Justiça de MT sedia II Encontro das Redes de Enfrentamento à Violência Doméstica
Autor: Roberta Penha
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Projeto de Barra do Garças que previne violência doméstica é selecionado para o Prêmio Innovare 2026
Published
13 minutos agoon
26 de junho de 2026By
Da Redação
O projeto Homens que Cuidam, desenvolvido pela Segunda Vara Criminal da Comarca de Barra do Garças em parceria com a Prefeitura Municipal, foi selecionado para concorrer à 23ª edição do Prêmio Innovare. A iniciativa se destaca por colocar os homens no centro das ações de prevenção à violência doméstica, por meio de atividades educativas que estimulam a reflexão sobre masculinidade, saúde emocional, autocuidado e relações familiares.
Lançado no final de 2025 e executado desde março deste ano, o projeto reúne o Poder Judiciário, a Prefeitura de Barra do Garças, forças de segurança, escolas, lideranças religiosas e outros atores sociais para desenvolver ações educativas voltadas ao público masculino. As atividades incluem palestras, encontros educativos e a integração com o Grupo Reflexivo para Homens (GRH), ampliando as estratégias de prevenção. A proposta é atuar antes que a violência aconteça, levando ações de conscientização a diferentes espaços da comunidade e incentivando mudanças de comportamento desde a infância até a vida adulta.
Idealizador da iniciativa, o juiz Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, que atua na Segunda Vara Criminal da Comarca, com competência em Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, explica que o projeto nasceu da constatação de que o machismo produz consequências não apenas para as mulheres, mas também para os próprios homens.
“O machismo não afeta só as mulheres. Homens têm expectativa de vida menor, bebem mais, cometem mais homicídios e são maioria na população carcerária. E, para cuidar da família, esse homem precisa, antes, cuidar de si próprio. Ele precisa perceber o risco que esse comportamento traz para a própria vida”, contextualiza.
Segundo o magistrado, campanhas tradicionais costumam estimular a mudança de comportamento em benefício da mulher ou da família. Na avaliação dele, esse modelo nem sempre é suficiente para provocar transformações efetivas. Por isso, o projeto busca mostrar aos homens os benefícios pessoais de abandonar padrões machistas, como a melhoria da saúde física e emocional, dos relacionamentos familiares e da qualidade de vida.
As atividades abordam temas como masculinidade, construção social dos papéis de gênero, influência da chamada “machosfera”, radicalização em ambientes digitais, manejo da raiva, reconhecimento e regulação das emoções, saúde do homem, autocuidado, parentalidade e os impactos do consumo abusivo de álcool.
A iniciativa estreou com uma palestra em uma escola da rede municipal de ensino. Em seguida, foi realizada uma reunião de alinhamento com representantes das instituições parceiras para definir as estratégias de atuação conjunta. A partir dessa articulação, o projeto passou a ser implementado em diferentes espaços da comunidade. Uma das ações ocorreu no destacamento do Cindacta, reunindo militares da Aeronáutica em uma palestra sobre masculinidade e prevenção da violência doméstica. Outra foi realizada na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Araguaia, onde cerca de 100 estudantes, entre homens e mulheres, participaram de um debate sobre igualdade de gênero, relações saudáveis e prevenção da violência. O projeto também deu início a um ciclo de três palestras voltadas aos servidores do sexo masculino da Prefeitura de Barra do Garças.
Outra frente do projeto é a integração com GRHs, conduzidos pela Segunda Vara Criminal. Além dos participantes encaminhados judicialmente, os encontros passaram a admitir a participação voluntária de homens interessados em refletir sobre seus comportamentos e prevenir situações de violência.
“O fato de homens procurarem espontaneamente o Grupo Reflexivo mostra que estamos conseguindo ampliar o alcance da prevenção. Nossa intenção é chegar antes da violência, oferecendo um espaço de reflexão e mudança de comportamento”, avalia o juiz.
Prêmio Innovare – Criado em 2004, o prêmio reconhece e dissemina práticas que contribuem para o aprimoramento do sistema de Justiça brasileiro, independentemente de alterações legislativas. Ao longo de sua trajetória, a premiação já analisou mais de 10 mil práticas desenvolvidas em todos os estados do país, consolidando-se como uma das principais vitrines de iniciativas inovadoras da Justiça brasileira.
Autor: Alcione dos Anjos
Fotografo:
Departamento: Assessoria de Comunicação da CGJ-TJMT
Email: [email protected]
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