AGRONEGÓCIO

Exportação cresce, mas excesso de carne derruba renda

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O Brasil nunca vendeu tanta carne suína, mas o avanço dos embarques não chegou ao bolso do produtor. A produção cresceu mais do que a capacidade de consumo dos mercados interno e externo, derrubou as cotações e levou o suíno vivo ao menor preço real em 24 anos na principal referência paulista.

Entre janeiro e julho, o país exportou 925,6 mil toneladas de carne suína, aumento de 9,1% em relação ao mesmo período de 2025. A receita também cresceu, mas apenas 5,8%, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). A diferença mostra que o valor recebido por tonelada já vinha diminuindo.

Os dados parciais de agosto aprofundaram esse movimento. Nos primeiros 15 dias úteis do mês, o volume médio embarcado por dia aumentou 2,4% na comparação anual. O preço médio da carne exportada, entretanto, caiu 9,2%, provocando uma redução de 7% na receita diária.

Isso significa que o mercado internacional está retirando mais carne do Brasil, mas pagando menos pelo produto. As exportações ajudam a escoar parte da produção, porém perderam capacidade de sustentar os preços pagos pelos frigoríficos aos criadores.

Dentro do país, o aumento da oferta foi ainda mais intenso. O abate chegou a 15,58 milhões de suínos no segundo trimestre, alta de 3,2% sobre o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O ritmo continuou elevado em julho e agosto, enquanto o consumo doméstico não avançou na mesma proporção.

Com mais animais disponíveis, os frigoríficos conseguiram preencher as escalas sem disputar lotes. A indústria reduziu as propostas de compra, e o efeito chegou rapidamente ao produtor independente, que negocia diretamente o suíno terminado e está mais exposto às oscilações do mercado.

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Na região paulista conhecida como SP-5, o animal posto na indústria foi negociado por uma média de R$ 4,97 por quilo em agosto. Depois de descontada a inflação, esse foi o menor preço da série do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada em março de 2002.

Até então, a menor média real havia sido registrada em julho de 2006, quando o quilo equivalia, em valores atualizados, a R$ 5,06. Em julho deste ano, o suíno paulista valia R$ 5,18 por quilo.

A diferença de R$ 0,21 por quilo entre julho e agosto parece pequena, mas representa uma perda de R$ 25,20 na comercialização de um animal de 120 quilos. Em uma carga com 100 suínos desse peso, a redução da receita chega a R$ 2.520 em apenas um mês, antes do desconto de transporte, impostos e demais despesas.

Outro levantamento, realizado pela consultoria Safras & Mercado, mostra que o preço médio do suíno vivo no Centro-Sul caiu de R$ 5 para R$ 4,77 por quilo em agosto. Para um animal de 120 quilos, a retração representa R$ 27,60 a menos na receita bruta do produtor.

A queda do animal vivo foi mais intensa que a desvalorização da carne. A carcaça recuou 2,91% no mês, para R$ 7,50 por quilo, enquanto o pernil perdeu 1,19% no atacado e terminou agosto cotado a R$ 9,49. Essa diferença indica que uma parcela maior do ajuste recaiu sobre o criador.

No Rio Grande do Sul, representantes da suinocultura afirmam que produtores já estão vendendo abaixo do custo de produção. O problema não teria sido provocado por uma disparada das despesas com ração, uma vez que milho e farelo de soja permaneceram relativamente estáveis, mas pela forte queda no valor pago pelo suíno a partir do segundo trimestre.

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A situação também mostra que crescimento da produção não significa necessariamente aumento da renda. Quando o número de animais avança mais depressa que o consumo, o resultado pode ser uma disputa entre produtores para colocar o suíno no frigorífico, com transferência de renda do campo para as etapas seguintes da cadeia.

O ajuste não acontece rapidamente. Os animais que já estão nas granjas continuarão chegando ao peso de abate, mesmo que os produtores reduzam agora o alojamento ou interrompam planos de expansão. Essa característica biológica prolonga os períodos de excesso de oferta.

O último trimestre costuma trazer alguma recuperação do consumo, favorecida pelas festas de fim de ano. Uma reação também poderá ocorrer se as exportações mantiverem o crescimento e recuperarem valor. Ainda assim, representantes do setor avaliam que uma eventual alta pode não ser suficiente para devolver imediatamente a rentabilidade às propriedades.

O desafio da suinocultura, portanto, deixou de ser apenas produzir e exportar mais. Para que o crescimento seja sustentável, a expansão dos plantéis precisa acompanhar a capacidade real de consumo e a disposição dos compradores de pagar pela carne. Sem esse equilíbrio, o recorde de produção aparece nas estatísticas, enquanto o prejuízo permanece na granja.

Fonte: Pensar Agro

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AGRONEGÓCIO

Embargo europeu freia na alta do boi mesmo com nova cota dos EUA

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A arroba do boi gordo começa setembro com possibilidade de valorização, sustentada pela menor oferta de animais e pela abertura de uma cota adicional para importação de carne bovina pelos Estados Unidos. O avanço dos preços, entretanto, deverá ser moderado, porque a suspensão das compras pela União Europeia retirou temporariamente um mercado importante para cortes brasileiros de maior valor.

A medida norte-americana permite a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina entre setembro e novembro com tarifa reduzida. O volume não é exclusivo do Brasil e será disputado por diferentes fornecedores, mas frigoríficos brasileiros estão entre os mais bem posicionados para ampliar as vendas, principalmente de cortes do dianteiro utilizados na produção de carne moída.

A nova demanda pode aumentar a necessidade de compra de gado pelos frigoríficos exportadores e dar sustentação à arroba. O efeito não deverá ser imediato nem uniforme, porque dependerá da participação conquistada pelo Brasil dentro da cota e da habilitação de cada unidade industrial para vender ao mercado norte-americano.

Do outro lado, a interrupção dos embarques para os 27 países da União Europeia reduz o espaço para uma reação mais forte. Embora o bloco compre menos carne brasileira que a China em volume, o mercado europeu tem importância estratégica por demandar produtos de maior valor agregado e remunerar melhor determinados cortes.

A suspensão também cria a necessidade de redirecionar mercadorias preparadas para os padrões europeus. Parte da produção poderá ser vendida a outros países, mas a substituição não ocorre de forma automática. Cada mercado procura cortes, embalagens e especificações diferentes, e a troca de destino pode reduzir o preço recebido pela indústria.

A União Europeia afirmou que as importações poderão ser retomadas assim que o Brasil comprovar o atendimento às exigências sobre o uso de antimicrobianos na produção animal. O porta-voz para o Comércio da Comissão Europeia, Olof Gill, declarou que as regras são “proporcionais e não discriminatórias” e que os parceiros comerciais receberam informações e tempo para se adaptar.

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Segundo a Comissão Europeia, as normas foram introduzidas em 2018, passaram a ser exigidas dos produtores do bloco em 2022 e agora começaram a valer para os fornecedores estrangeiros. Bruxelas sustenta que o controle da resistência aos antimicrobianos é uma prioridade de segurança alimentar e que as mesmas condições são aplicadas aos produtores europeus e aos países interessados em vender ao mercado comum.

A resposta contraria a posição do governo brasileiro. Em nota conjunta, o Ministério da Agricultura e Pecuária e o Ministério das Relações Exteriores afirmaram que o país implementou as medidas necessárias, apresentou documentos e forneceu as garantias solicitadas pelas autoridades europeias.

O governo também criticou a ausência de diálogo antes da adoção da restrição e indicou que poderá recorrer a medidas de reciprocidade caso as negociações não produzam uma solução satisfatória. Entre as possibilidades estão instrumentos previstos na legislação brasileira, no sistema multilateral de comércio e no Acordo Mercosul-União Europeia.

A posição brasileira é que carnes, ovos, pescados e mel foram incluídos nas cotas e reduções tarifárias negociadas no acordo entre os dois blocos. A retirada desses produtos do mercado europeu, segundo o governo, reduz os ganhos esperados pelo Brasil e pode alterar o equilíbrio das concessões acertadas durante a negociação comercial.

No mercado pecuário, a disputa ocorre em um momento de tentativa de recuperação dos preços. Segundo levantamento da consultoria Safras & Mercado, a arroba encerrou agosto a R$ 345 em São Paulo, com recuo de 1,43% em relação ao final de julho. Em Goiás e Minas Gerais, o valor chegou a R$ 335, alta de 3,08%.

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Em Mato Grosso do Sul, a arroba terminou o mês cotada a R$ 345, avanço de aproximadamente 3%. Mato Grosso registrou R$ 330, valorização de 1,54%, enquanto Rondônia chegou a R$ 333, com aumento de 2,46%.

Os preços perderam força durante agosto porque os grandes frigoríficos conseguiram ampliar as escalas de abate com animais provenientes de parcerias e confinamentos próprios. Essa oferta reduziu a necessidade de disputar gado no mercado e limitou a valorização observada em parte das regiões produtoras.

No atacado, o quarto dianteiro encerrou agosto cotado a R$ 20 por quilo, praticamente estável. O quarto traseiro recuou 1,89%, para R$ 26 por quilo. A carne bovina também enfrentou maior concorrência do frango e da carne suína, proteínas geralmente mais acessíveis ao consumidor.

Para setembro, a entrada dos salários, a redução gradual da oferta de animais terminados e a demanda dos Estados Unidos podem melhorar o ambiente de negociação. A tendência, porém, é de uma alta controlada, sem movimento explosivo da arroba enquanto permanecer a incerteza sobre o mercado europeu.

Uma recuperação mais consistente poderá ocorrer no fim do ano, quando frigoríficos começarem a contratar animais para atender aos embarques de 2027, especialmente para a China. Até lá, o preço recebido pelo pecuarista dependerá do tamanho das escalas de abate, da participação brasileira na cota dos Estados Unidos e da velocidade das negociações para reabrir o mercado europeu.

Fonte: Pensar Agro

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