AGRONEGÓCIO
Farsul prevê 2026 como um ano de safra melhor, mas crise de crédito continua
Publicado em
17 de dezembro de 2025por
Da Redação
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) vê 2026 como um ano de safra melhor, mas dentro de uma crise de crédito prolongada e de uma economia brasileira em desaceleração, com impactos diretos sobre o agro gaúcho e nacional.
Em coletiva nesta terça-feira (16.12), a entidade apresentou projeções que combinam recuperação de produção no campo com juros ainda muito altos, queda de recursos para políticas agrícolas e endividamento crescente dos produtores.
Segundo a entidade, entre 2020 e 2025, os produtores rurais gaúchos já sofreram uma perda de faturamento acumulada de R$ 126,3 bilhões devido a problemas climáticos, como estiagens e enchentes
Segundo o economista-chefe da Farsul, Antonio da Luz, o PIB do Brasil deve crescer 2,35% em 2025 e desacelerar para 1,75% em 2026. Para o setor agropecuário nacional, a projeção é de alta de 10,52% em 2025, seguida de retração de 1,1% no ano seguinte, num movimento de correção após um ciclo de forte expansão. No Rio Grande do Sul, se a safra em andamento se confirmar, o PIB estadual pode avançar 4,40% em 2026, com o PIB do agro gaúcho saltando 36,75% depois de uma queda prevista de 10,66% em 2025.
A Farsul projeta IPCA de 3,83% em 2026 e taxa Selic encerrando 2025 em 15% e 2026 em 12%, patamar considerado muito elevado para a realidade do campo. Para Da Luz, o desequilíbrio fiscal do governo federal sustenta juros altos e alimenta a “maior crise de crédito da história” no agronegócio, com inadimplência no crédito rural em torno de 11,4% e retração estimada de 15% no volume de financiamentos tomados em 2026. O economista avalia que políticas como Plano Safra, Proagro e Seguro Rural tendem a perder força porque as despesas discricionárias federais estão em queda, o que deixa o produtor cada vez mais dependente de capital próprio e de soluções privadas.
Nas palavras da Farsul, “produtor que for dependente de governo vai ter muitas dificuldades”, pois a restrição fiscal e o custo do dinheiro não são conjunturais, mas estruturais. A entidade destaca que o Brasil vive hoje o maior descompasso entre crédito rural anunciado e efetivamente desembolsado, o que se soma ao encarecimento das garantias exigidas e à piora da inadimplência. Diante desse quadro, a orientação é que o produtor fortaleça gestão de risco, diversifique fontes de receita e trate o governo como apoio complementar, não como pilar central do financiamento.
Questionada sobre a Medida Provisória 1.314, que abre espaço para novas linhas de crédito destinadas à renegociação de dívidas, a Farsul informou ter mantido conversas recentes com o Ministério da Fazenda e aguarda a edição de uma nova MP ajustando pontos como encargos financeiros e critérios de enquadramento.
A entidade, porém, sinaliza que, se o texto revisado não atender às demandas dos produtores, partirá para a defesa da aprovação do Projeto de Lei 5.122, que trata da securitização ampliada das dívidas rurais. Para o presidente atual, Gedeão Pereira, e o presidente eleito, Domingos Lopes, as medidas em discussão ainda são “capengas” frente ao tamanho do endividamento, e a prioridade é manter o produtor “à tona” até que um ciclo de safra boa e preços melhores permita reorganizar o passivo.
Ao projetar o cenário até o fim da década, Gedeão Pereira afirma que o desafio não é apenas 2026, mas todo o período até 2030, em um país cuja economia “vai afundando numa rapidez impressionante”. Na avaliação da Farsul, esse quadro macroeconômico pesa sobre investimentos, modernização e competitividade do agro gaúcho, mesmo em anos de safra cheia, e exige planejamento mais conservador, foco em produtividade e negociações firmes com o sistema financeiro.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Estudo da USP aponta 17 pontos que encarecem o frete e entidades do agro cobram mudanças
Published
10 minutos agoon
5 de setembro de 2026By
Da Redação
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) deu força à pressão da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) por mudanças no cálculo do piso mínimo do frete. O levantamento identificou 17 pontos que podem estar elevando artificialmente os valores, sobretudo no transporte de grãos em trajetos curtos e nas operações de maior produtividade.
As conclusões foram apresentadas durante o processo de revisão da regulamentação conduzido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A FPA e entidades do setor produtivo querem que a agência utilize os custos efetivamente observados nas estradas brasileiras, em vez de parâmetros que, segundo o estudo, já não representam a realidade da frota e das transportadoras.
O trabalho foi elaborado pelo Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Log), ligada à USP. Os pesquisadores analisaram jornada de trabalho, consumo de combustível, idade dos caminhões, quantidade de eixos, retorno vazio, depreciação dos veículos e produtividade das operações.
Uma das principais distorções estaria no número de horas trabalhadas. A metodologia atual considera uma utilização mensal de 181 horas para calcular quanto os custos fixos representam em cada viagem. Para os pesquisadores, esse parâmetro indica uma subutilização do caminhão e do tempo legalmente disponível do motorista.
A proposta é elevar a referência para 220 horas mensais. Com mais horas de utilização, despesas como depreciação, remuneração do capital e salário do motorista seriam distribuídas por um número maior de viagens, reduzindo o custo atribuído a cada quilômetro rodado.
Apenas essa alteração poderia diminuir em 7,6%, na média, os valores calculados para o piso. No transporte de grãos, a diferença ficaria entre 6,38% e 11,04%, dependendo da distância percorrida e da configuração do caminhão.
Em uma operação com piso de R$ 10 mil, uma diferença de 11% representa aproximadamente R$ 1,1 mil por viagem. Para uma empresa, cooperativa ou produtor que contrate cem viagens durante a colheita, o custo adicional pode superar R$ 110 mil.
O impacto é ainda maior nas regiões afastadas dos portos. Como soja, milho, algodão e outras commodities percorrem centenas ou milhares de quilômetros até os terminais de exportação, o frete interfere diretamente no valor recebido pelo produtor. Quanto maior o custo logístico, menor tende a ser o preço pago pela produção na origem.
O estudo também questiona a vida econômica de sete anos utilizada pela tabela para calcular a depreciação dos caminhões. Dados da própria ANTT mostram que os veículos de tração em circulação no país possuem idade média de 16,4 anos.
Na avaliação dos pesquisadores, utilizar um período muito menor concentra a perda de valor do veículo em poucos anos e eleva o custo de cada viagem. A adoção de uma referência de 16 anos poderia reduzir entre 6% e 10% o valor calculado para o transporte de grãos, conforme o percurso e o tipo de composição veicular.
A FPA pretende usar esses resultados para pressionar pela adoção do custo operacional efetivo como base da nova regulamentação. O argumento é que a tabela precisa garantir a remuneração do transportador, mas não pode incluir despesas teóricas ou superestimadas que encareçam artificialmente a movimentação da produção brasileira.
Entidades do setor encaminharam à ANTT 15 contribuições. Entre elas estão a retirada de componentes que não representem desembolso efetivo, a criação de regras específicas para operações de alto desempenho e um tratamento mais preciso para viagens com retorno vazio.
A proposta busca diferenciar situações que atualmente acabam submetidas a parâmetros semelhantes. Um caminhoneiro autônomo que percorre longa distância e retorna sem carga enfrenta custos diferentes de uma transportadora com contratos recorrentes, frota mais produtiva e carga garantida nos dois sentidos.
A pressão da bancada também alcança a Lei 15.485/2026, que ampliou a fiscalização sobre o piso mínimo e estabeleceu prazo máximo de 30 dias úteis para o pagamento do frete. A FPA participou da negociação do texto aprovado pelo Congresso, mas critica os vetos feitos pela Presidência da República.
Os parlamentares defendem a recuperação de dispositivos que, segundo a bancada, foram construídos para equilibrar a proteção aos caminhoneiros e os custos suportados pelo setor produtivo. Os vetos ainda precisam ser analisados pelo Congresso.
A nova legislação tornou obrigatório o registro da operação no Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) e endureceu as punições para contratações abaixo do piso. Em caso de reincidência, a multa pode chegar a R$ 1 milhão, além de outras sanções administrativas.
Para a FPA, reforçar a fiscalização sem corrigir previamente as distorções da metodologia pode obrigar produtores e empresas a cumprir valores superiores ao custo real do transporte. A bancada quer que a revisão da ANTT incorpore as diferenças de distância, idade da frota, número de eixos, produtividade e aproveitamento do retorno.
A discussão exige equilíbrio. O piso foi criado para impedir que caminhoneiros sejam obrigados a transportar cargas por valores incapazes de cobrir diesel, pneus, manutenção e remuneração do trabalho. A revisão defendida pelo agro não pode retirar essa proteção, mas precisa evitar que parâmetros desatualizados reduzam a competitividade da produção.
O estudo da USP coloca números nesse debate. Agora, a disputa será sobre quanto dessas conclusões a ANTT aceitará na nova tabela e se o Congresso derrubará os vetos à lei. Para produtores e transportadores, o resultado poderá definir quem pagará a conta das distorções existentes no cálculo do frete.
Fonte: Pensar Agro
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