AGRONEGÓCIO

Fundos financeiros compram de terras e dominam o campo brasileiro

Publicado em

A presença de capital financeiro internacional no campo brasileiro deixou de ser tendência difusa e começa a aparecer com nitidez em dados acadêmicos.

Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos, publicada na revista Rural Sociology, indica um avanço consistente da concentração de terras nas mãos de grandes multinacionais do agronegócio e de investidores institucionais estrangeiros, em um movimento descrito como “financeirização” da agricultura.

Em vez de apenas empresas produtivas tradicionais, fundos de investimentos e gestoras globais passam a ocupar posições centrais nas compras de grandes áreas rurais, influenciando quem é dono da terra e como ela é usada no Brasil.

O estudo, concluído em 2025 com base em dados coletados em 2024, utilizou como principal fonte a plataforma internacional Land Matrix, referência no monitoramento de grandes transações fundiárias em vários países.

A partir dessa base e de pesquisas anteriores sobre mercado de terras, os autores mapearam operações de aquisição de áreas agrícolas em larga escala e identificaram que uma parcela relevante desses negócios é alimentada por capital estrangeiro.

Na prática, o estudo mostra que, nas grandes operações, multinacionais do agro e grandes gestoras de ativos financeiros formam uma rede que concentra cada vez mais a propriedade de terras em poucos grupos, muitos deles sediados fora do país.

Leia Também:  Aumento de 12,2% do diesel diminui poder de compra dos produtores, segundo o Cepea

O conceito de “financeirização” aparece no trabalho em sentido amplo: trata-se do aumento do poder e da influência de atores financeiros — como fundos, bancos de investimento e holdings globais — sobre a produção agrícola, não apenas pelo crédito ou financiamento, mas pelo controle direto da terra.

Segundo a pesquisa, esse tipo de estrutura tende a orientar decisões de uso da terra e de gestão das fazendas para objetivos típicos do mercado financeiro, como maximização de retorno no curto e médio prazos, diversificação de carteira e gestão de risco, o que pode nem sempre coincidir com agendas de desenvolvimento regional, segurança alimentar ou permanência de produtores locais.

Para o agronegócio brasileiro, o processo é ambivalente. De um lado, a entrada de recursos de grandes investidores amplia a oferta de capital para expansão de áreas agricultáveis, modernização tecnológica e construção de infraestrutura, especialmente em regiões de fronteira agrícola ou de produção em larga escala.

De outro, o avanço da estrangeirização e da concentração fundiária levanta preocupações sobre soberania, controle do território, acesso à terra por produtores nacionais e impactos sociais em comunidades rurais, como aumento do preço de terras e pressão sobre pequenas e médias propriedades.

Leia Também:  EUA reconhecem o Brasil como campeão mundial na produção de soja

A pesquisa chama atenção para o fato de que os dados analisados representam uma amostra, mas o volume de terras envolvidas já é suficiente para indicar um movimento consolidado, e não apenas casos isolados.

O alerta dos pesquisadores é que a crescente dependência do agro em relação ao capital financeiro internacional pode reduzir o espaço de decisão de atores locais sobre o futuro do campo, tornando o Brasil mais vulnerável a oscilações globais de juros, apetite por risco e mudanças regulatórias em outros países.

Para formuladores de políticas públicas, o estudo reforça a necessidade de monitorar com mais transparência o mercado de terras, aprimorar regras de controle sobre investimentos estrangeiros e equilibrar a atração de capital com a proteção de interesses estratégicos do país e das comunidades rurais.

Fonte: Pensar Agro

COMENTE ABAIXO:
Advertisement

AGRONEGÓCIO

Rota pelo Pacífico pode reduzir custo e ampliar exportações do agro

Published

on

O governo federal deu mais um passo para tirar do papel uma antiga demanda do agronegócio: criar uma rota de exportação pelo Oceano Pacífico para reduzir a dependência dos portos brasileiros. O Ministério da Agricultura instituiu nesta semana o Programa de Integração Produtiva e Logística Brasil-Bolívia-Pacífico, iniciativa que pretende estruturar um corredor internacional de transporte ligando Mato Grosso aos portos do Chile e do Peru.

Na prática, o programa não constrói estradas nem define um cronograma de obras, mas cria um comitê gestor responsável por coordenar ações entre os governos brasileiro e boliviano, facilitar acordos sanitários e aduaneiros e atrair investimentos para tornar o corredor operacional.

A proposta interessa principalmente a Mato Grosso, maior produtor de grãos do país. Hoje, boa parte da soja, do milho, do algodão e da carne produzidos no Estado percorre entre 2 mil e 2,3 mil quilômetros até portos como Santos (SP), Paranaguá (PR), Itaqui (MA), Miritituba (PA) e Barcarena (PA). Além da longa distância, o elevado fluxo de cargas pressiona o custo do frete durante a safra.

Pela nova alternativa, a produção seguiria da região oeste de Mato Grosso até Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira com a Bolívia. A partir dali, cruzaria cidades bolivianas como San Ignacio de Velasco e Santa Cruz de la Sierra, seguindo pela malha rodoviária do país até alcançar portos no Oceano Pacífico, como Arica, Iquique e Antofagasta, no Chile, ou Ilo, no Peru.

Leia Também:  Aumento de 12,2% do diesel diminui poder de compra dos produtores, segundo o Cepea

À primeira vista, o trajeto terrestre não representa uma redução expressiva da distância em relação aos portos brasileiros. O principal ganho está no transporte marítimo. Para cargas destinadas à China, ao Japão, à Coreia do Sul e a outros mercados asiáticos, a saída pelo Pacífico reduz o tempo de navegação em comparação com as rotas que partem do Atlântico, além de diminuir a dependência dos corredores logísticos hoje concentrados no Sul, Sudeste e Arco Norte.

A proposta também amplia as alternativas para o escoamento da safra em períodos de maior demanda. Mato Grosso deverá colher mais de 100 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), volume que exige investimentos permanentes em infraestrutura de transporte.

Outro ponto considerado estratégico é o abastecimento de insumos agrícolas. A integração com a Bolívia pode facilitar a chegada de fertilizantes e outros produtos utilizados na produção rural, diversificando as rotas de abastecimento e reduzindo a dependência de corredores já sobrecarregados.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Vilmondes Tomain, classificou a iniciativa como um avanço para o setor. Segundo ele, o Estado sempre enfrentou o desafio da distância entre as áreas produtoras e os portos de exportação, o que reduz a competitividade do agronegócio mato-grossense.

Leia Também:  A urgente necessidade de um Plano Safra comprometido com a realidade do campo

Apesar do potencial, o corredor ainda depende de uma série de investimentos. Mato Grosso já executa obras de pavimentação em direção à fronteira, mas será necessário melhorar a infraestrutura rodoviária em território boliviano, além de harmonizar procedimentos alfandegários, sanitários e de fiscalização entre os dois países.

Para especialistas em logística, a rota bioceânica não substituirá os portos brasileiros, mas funcionará como uma alternativa estratégica. Quanto maior o número de corredores disponíveis para o escoamento da produção, menor tende a ser a pressão sobre o frete, aumentando a competitividade do agronegócio brasileiro no mercado internacional.

Fonte: Pensar Agro

COMENTE ABAIXO:
Continuar lendo

GRANDE CUIABÁ

MATO GROSSO

POLÍCIA

ENTRETENIMENTO

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA