Tribunal de Justiça de MT
“Mais acolhimento e menos julgamento”: jornada como pai atípico é compartilhada em evento sobre auti
Publicado em
1 de outubro de 2025por
Da Redação
Em um depoimento sincero e cheio de sentimentos, o servidor judiciário Washington Hedder de Vasconcelos compartilhou os desafios enfrentados por famílias atípicas e sua história como pai da adolescente Larissa, de 13 anos, diagnosticada com autismo nível 3 e surdez profunda bilateral. Ele apresentou a palestra “Desmistificando o Autismo: um olhar acolhedor” durante a 4ª edição do projeto “TJMT Inclusivo – Capacitação e Conscientização em Autismo”, realizada no Fórum de Cáceres no dia 26 de setembro.
Washington, que também descobriu estar no Transtorno do Espectro Autista (TEA) após o diagnóstico da filha, falou sobre a rotina de terapias, as dificuldades de inserção escolar, os preconceitos enfrentados e a luta constante por respeito e inclusão. Em seu relato, destacou que o autismo não impacta apenas a pessoa diagnosticada, mas toda a família, que passa a viver uma realidade repleta de desafios, tanto emocionais quanto sociais.
“Quando você tem uma criança ou adulto com TEA, você tem uma família atípica. O sofrimento não é só da pessoa, mas da família inteira. Hoje não é somente o autista que precisa se preparar para estar na sociedade. A sociedade é que precisa se preparar ainda mais para recebê-lo. O que falta não é apenas informação, mas conscientização. É preciso transformar empatia em gentileza e compaixão, com ações reais de acolhimento e apoio”, afirmou.
Durante a palestra, Washington destacou que grande parte das barreiras enfrentadas por famílias atípicas não vem apenas das limitações trazidas pelo TEA, mas do preconceito e da desinformação.
“Na prática, ainda vivemos o paradigma do preconceito velado. Vemos todos os dias as escolas com discursos lindos de inclusão, mas a prática é outra. Minha filha já foi expulsa uma escola particular, mesmo com todos os recursos oferecidos pela família para apoiar seu processo pedagógico”, lamentou.
Em sua fala, Washington também abordou a dimensão afetiva e espiritual dessa jornada. Ele contou que a chegada dos diagnósticos trouxe luto e sofrimento, mas que encontrou forças para seguir na fé e no amor incondicional à filha. Para ele, as pessoas autistas têm uma autenticidade única, que contrasta com a exigência de “máscaras” impostas pela sociedade.
“O autista é autêntico em um mundo que exige cópias. Ele não finge, ele é real. O problema está em uma sociedade que ainda não está preparada para lidar com essa autenticidade. E não tem como falar de autismo sem falar de amor, que não é só um sentimento, é uma decisão. É o que nos move a lutar, mesmo em meio às dores”, contou.
Washington também alertou que o autismo deve ser tratado como questão de saúde pública, citando dados recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), que indicam que a prevalência já chega a 1 caso para cada 31 nascimentos. “Isso significa que toda família terá contato com o autismo em algum momento. Não é um assunto de poucos, é um tema que impacta toda a sociedade.”
Ao encerrar sua fala, o servidor emocionou a plateia ao compartilhar o maior medo de pais atípicos: o futuro dos filhos quando eles já não estiverem presentes. “A lei natural é que eu vou antes da minha filha. E o que mais me angustia é pensar: em que mundo vou deixá-la? Por isso não tive escolha. Precisei sair do silêncio, falar, lutar e conscientizar. O que precisamos é de mais acolhimento e menos julgamento”, lembrou.
A 4ª edição do projeto “TJMT Inclusivo – Capacitação e Conscientização em Autismo” foi promovida pela Comissão de Acessibilidade e Inclusão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em parceria com a Escola Superior da Magistratura (Esmagis-MT) e Escola dos Servidores, e reuniu magistrados(as), servidores(as), profissionais da saúde, da educação, estudantes, familiares e pessoas atípicas, consolidando-se como uma iniciativa de grande impacto social e jurídico para toda a região.
A edição em Cáceres soma-se a outras já realizadas em Sinop, Sorriso e Cuiabá e resulta da determinação do Tribunal em percorrer todo o estado levando informação e capacitação. Até o fim do ano, outras comarcas-polo receberão o projeto.
Todas as palestras do evento estão disponíveis no YouTube, assista aqui.
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Autor: Ana Assumpção
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
Published
2 meses agoon
9 de agosto de 2026By
Da Redação

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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