Tribunal de Justiça de MT
Mais de 600 pessoas participam de corrida em Sinop por um futuro sem violência contra as mulheres
Publicado em
3 de agosto de 2025por
Da Redação
Até junho deste ano, 454 mulheres solicitaram medidas protetivas de urgência no município de Sinop. O número reflete o resultado do trabalho da Rede de Enfrentamento e Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Sinop, que, nesse sábado (02 de agosto), deu mais um passo no trabalho de conscientização e informação sobre o tema, com a “2ª Corrida Maria da Penha – Juntos pelo fim da violência contra a Mulher”. O evento reuniu mais de 600 pessoas em uma ação de cuidado com a saúde, solidariedade e atenção às mulheres.
“A ideia de unir esporte com conscientização surgiu justamente porque, para correr, é preciso ter determinação. E é com essa determinação que nós, como sociedade, precisamos para enfrentar a violência contra as mulheres. Escolhemos a corrida e a caminhada como formas simbólicas e práticas de mobilizar as pessoas em torno dessa causa tão urgente”, explica a juíza Débora Roberta Pain Caldas, membro da Rede de Sinop.
Criada em 2019, a Rede de Enfrentamento de Sinop conta com 30 parceiros que realizam ações em todas as frentes, dentre elas: educação, conscientização, responsabilização dos autores de violência doméstica contra a mulher, acolhimento e resgate das mulheres. A união dessas iniciativas conta com a intermediação do Poder Judiciário de Mato Grosso, que, desde o início, cumpre também o papel de articulador.
“A nossa rede é considerada um modelo. Esse sucesso se deve, principalmente, ao fato de diversas instituições que já tinham projetos individuais compreenderem a importância de atuarem de forma conjunta e estruturada e o Judiciário teve um papel fundamental nessa articulação. Foi o Judiciário que realizou a primeira reunião com essas instituições e a partir daí, formamos uma comissão que conduz esse trabalho de forma exemplar”, conta a magistrada.
Esporte e conscientização
Ao unir esporte e conscientização, o evento amplia a visibilidade dos trabalhos da Rede de Proteção, por propagar as informações dos serviços realizados em Sinop.
“Movimentos como esse levam a mensagem adiante, sensibilizam a população, e também fortalecem aquelas mulheres que estão passando por situações de violência. Elas passam a se sentir mais encorajadas a fazer a denúncia, sabendo que existe uma rede de apoio forte e articulada para acolhê-las”, declarou a diretora do Fórum de Sinop e titular da Vara Especializada da Infância e Juventude, a juíza Melissa de Lima Araújo.
O fortalecimento da Rede de Proteção de Sinop reflete no quadro de denúncias e concessões de medidas na cidade.
“Mas isso não é negativo. Ao contrário: mostra que as mulheres estão buscando ajuda, que elas estão acessando os serviços e se sentindo encorajadas a denunciar. As ações contínuas da Rede, como blitz educativas, palestras em escolas e empresas, contribuem para isso. Elas levam a informação até a população e mostram que existe um serviço de apoio, que existe uma Rede estruturada pronta para acolher. A informação está chegando onde precisa chegar”, garante a coordenadora da Rede de Proteção de Sinop, Eliane dos Santos.
Celebração
O casal Cristina Ribeiro da Cruz e Fernando Sembranell estavam entre os 600 participantes da “2ª Corrida Maria da Penha”. Esporte que os uniu há quase um ano. “Nos conhecemos em uma maratona e desde então, não paramos de correr juntos”. Juntos percorreram os 5 km da prova que, para eles, representa união pela causa, mas também um ato de amor e respeito.
Para Fernando, trazer a conscientização por meio do esporte é incentivar as relações saudáveis. “Às vezes, esse tema é até mal compreendido. Mas quando olhamos para a convivência entre um casal, como a nossa, percebemos que é uma construção. É como na corrida: às vezes, ela está na frente e eu dou apoio. Outras vezes, sou eu que estou na frente e ela me apoia. Muitas vezes, estamos lado a lado. É sobre equilíbrio, respeito, parceria”.
Já Cristina, uma maratonista de longa distância, considera a modalidade uma atividade que exige respeito ao corpo assim como deve ser com as mulheres. “A corrida nos conscientiza, nos ajuda a buscar uma vida com mais qualidade e a refletir sobre nossas relações. Participar de eventos assim nos motiva a ser melhores a cada dia, com mais amor, mais carinho e mais respeito ao próximo”.
A “2ª Corrida Maria da Penha” também atraiu o advogado Clayton Oliveira, que participou de sua segunda prova. Ele reforçou a relevância de falar sobre o tema diariamente. “As mulheres precisam, sim, de uma atenção especial, especialmente diante do número crescente de casos de violência que a gente presencia. Eventos esportivos como esse cumprem um papel fundamental ao incentivar as pessoas a praticarem atividade física e, ao mesmo tempo, promoverem a conscientização sobre a proteção e o respeito às mulheres”.
Após encerrar o circuito de 5 km em segundo lugar, Moisés Rodrigues Rezende, celebrou a conquista ao lado da esposa e reforçou a mensagem de não violência contra a mulher.
“A mulher precisa ser respeitada em todas as esferas. A relação entre homem e mulher deve ser baseada em parceria. Ninguém é dono de ninguém. Se o relacionamento não deu certo, é melhor se afastar com respeito do que tentar impor algo à força. A violência nunca é o caminho”.
O atleta também lembrou que além da violência física o homem precisa ter consciência de que há outras formas de violência. “E não é só a violência física que machuca; a psicológica, as palavras, também ferem. É preciso consciência. O homem, por ter mais força física, muitas vezes acha que pode se impor, mas não pode usar essa força para oprimir ou agredir”.
Rede presente!
A Sargento Cléa Costa Monteiro, policial militar à frente da Patrulha Maria da Penha de Alta Floresta e mais oito municípios, viajou mais de 300 km para participar da “2ª Corrida Maria da Penha” e ampliar a voz de não violência contra às mulheres. “A nossa atuação é focada na conscientização e no enfrentamento à violência contra a mulher. Infelizmente, os números ainda são muito altos, tanto no município quanto no estado, e por isso é tão necessário falar sobre o assunto, orientar e acolher. Participar de eventos como este é uma forma de demonstrar apoio às mulheres e reafirmar o nosso compromisso com a proteção de seus direitos”.
A “2ª Corrida Maria da Penha” também inicia o mês Agosto Lilás de Sinop, período em que se reforçam os trabalhos de conscientização para pôr fim à violência contra a mulher. Ao longo do mês, a Rede promoverá várias ações com essa temática.
Arrecadação
Os valores arrecadados durante a “2ª Corrida Maria da Penha” serão revertidos para a Rede de Sinop, que atende entre 60 e 80 mulheres em situação de violência doméstica por mês. O objetivo da arrecadação é atingir R$ 20 mil, que ficarão em caixa para o atendimento direto e emergencial às mulheres atendidas pela Rede.
“Fizemos parceria com um supermercado da cidade que integra a Rede. O valor será depositado diretamente no supermercado, e a Rede terá cartões para uso específico: um na Rede e outro com a Delegacia da Mulher”, explica a coordenadora da Rede, Eliane.
Com esses cartões serão feitos atendimentos personalizados, conforme as necessidades de cada mulher. “Ao invés de uma cesta padrão, poderemos comprar exatamente o que aquela mulher precisa no momento: leite, fralda, mamadeira, frutas, bolachas”.
A juíza Giselda Regina Sobreira de Oliveira Andrade, da Primeira Vara Criminal de Sinop e a vereadora Sandra Donato, presidente da Procuradoria da Mulher, também estiveram presentes no evento.
Autor: Priscilla Silva
Fotografo: Josi Dias
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
Published
2 semanas agoon
9 de agosto de 2026By
Da Redação

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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