Tribunal de Justiça de MT
Congresso internacional fortalece a Justiça Restaurativa e reúne representantes do Judiciário
Publicado em
2 de março de 2026por
Da Redação
A Justiça Restaurativa foi reafirmada como eixo estruturante de transformação institucional durante o I Congresso Internacional de Justiça Restaurativa, realizado entre os dias 25 e 27 de fevereiro, em João Pessoa, na Paraíba. O evento reuniu magistrados, especialistas e representantes de instituições públicas do Brasil e do exterior, evidenciando o avanço da pauta no cenário nacional.
A desembargadora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), Clarice Claudino da Silva, integrou o conjunto de autoridades presentes, compondo um cenário de articulação entre tribunais e reforçando o caráter nacional da política restaurativa. Para ela, o momento vivido pela Justiça Restaurativa no país evidencia um avanço que ultrapassa o campo metodológico e alcança uma dimensão estrutural nas instituições.
“A Justiça Restaurativa nos convida a uma mudança de perspectiva sobre o próprio sentido da Justiça. Não se trata apenas de incorporar uma metodologia, mas de promover uma transformação na forma como lidamos com os conflitos, com as pessoas e com as relações. Quando o Judiciário se abre para o diálogo, para a escuta qualificada e para a corresponsabilização, ele se aproxima mais da realidade social e amplia sua capacidade de produzir respostas efetivamente restaurativas. Esse movimento exige compromisso institucional, formação contínua e, sobretudo, a compreensão de que a construção da paz é um processo coletivo, que envolve não apenas as instituições, mas toda a comunidade”, definiu a desembargadora Clarice Claudino.
Além da desembargadora, também participaram do congresso a juíza auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Viviane Brito Rebello, de Mato Grosso, a gestora-geral do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur), Euzeni Paiva de Paula, e o assessor de Relações Institucionais do Nugjur, Rauny Viana.
Durante sua participação, o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Alexandre Teixeira, destacou o estágio atual da Justiça Restaurativa no Brasil, enfatizando o avanço da política ao longo das últimas duas décadas.
“A política da Justiça Restaurativa completou 20 anos em 2025, e ao longo desse período, consolidou-se no âmbito do Poder Judiciário com projetos nas esferas pré-processual, processual e de execução, além de ações de cidadania em escolas, comunidades, rede socioeducativa, entre outros espaços. A política foi implementada em todos os tribunais estaduais e expandiu-se para a Justiça Federal, a Justiça do Trabalho, a Eleitoral, como estamos aqui, também de maneira vanguardista, e a Justiça Militar”.
Teixeira destacou ainda que a Justiça Restaurativa representa uma mudança de paradigma no próprio papel do Judiciário e que, no cenário atual, o debate já não se concentra mais na validação da metodologia, mas na sua expansão com qualidade, formação e continuidade dentro das instituições.
“Quando o CNJ institui a Política Nacional da Justiça Restaurativa, reconhece que o Judiciário não pode ser apenas um espaço de resposta tardia ao conflito. Deve ser também um indutor de novas formas de convivência. Num país de tantas injustiças, de tantas desigualdades como é o Brasil, a Justiça Restaurativa é artigo de primeira necessidade”.
Representando o contexto regional, o presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), desembargador Oswaldo Trigueiro do Vale Filho, destacou os desafios concretos da implementação da Justiça Restaurativa nas instituições.
“Trabalhar com Justiça Restaurativa é desafiador. É desafiador porque nós, e quem vive a Justiça Restaurativa, sabe da dificuldade para colocá-la em prática, para que, de fato, ganhe espaço significativo na eficiência do Poder Judiciário. A superação de resistências institucionais e culturais é o primeiro passo. Existem espaços de dificuldades do ponto de vista de preconceitos, de obstáculos, que não são fáceis. E de fazer com que as estruturas atuais possam nos enxergar como algo do presente e do futuro. Cada inspeção, cada correção, nós iniciávamos com um Círculo de Paz. E que potência, que coisa maravilhosa nós colocarmos na mesma roda os terceirizados, os requisitados, os técnicos, os analistas, o juiz, a juíza”.
Justiça Restaurativa como ruptura e resposta histórica – Com uma apresentação marcada por referências históricas, crítica estrutural e forte dimensão ética, a professora Fania Davis encerrou o congresso defendendo que a Justiça Restaurativa representa uma ruptura profunda com o modelo retributivo e uma reconexão com saberes ancestrais de cura e comunidade.
“Mesmo passado meio século, uma verdade antiga se levanta novamente como o sol da manhã: uma justiça nascida não de vingança, mas de compaixão. Uma justiça que não é projetada para punir, mas para restaurar. Uma justiça que não é um campo de batalha, mas campo de cura. Uma justiça que não procura ‘ficar quites’, mas ‘ficar bem’. Responsabilidade não é vingança. Responsabilidade não é punição. Responsabilidade é responsabilidade assumida e reparada com cuidado, com coragem e em comunidade. Nosso modelo dominante, a justiça retributiva, ensina que quando uma pessoa é ferida, devemos ferir de volta, como se o sofrimento pudesse equilibrar a justiça. Mas o que a ciência do trauma nos ensina, e o que sabemos profundamente, é que machucar pessoas, machuca pessoas. E quando respondemos ao dano com mais dano, ciclos de violência ecoam através das gerações. Nossos países têm paralelos históricos profundos. Somos sociedades nascidas em oceanos de sangue, sangue de terras roubadas, de vidas roubadas, de conquistas coloniais, escravidão, genocídio e capitalismo racial. Essas disparidades que vemos hoje são o que chamamos de ‘vidas posteriores da escravidão’. Elas continuam a moldar nossas instituições, inclusive o sistema de justiça”.
Ao avançar em sua reflexão, a professora destacou que a Justiça Restaurativa exige uma transformação profunda das instituições, baseada na memória, na comunidade e no compartilhamento de poder.
“A justiça restaurativa, em seu nível mais profundo, não é uma invenção. Não é uma inovação. É uma lembrança. Em cosmologias indígenas, a memória não vive apenas na mente. Ela vive nos rios, nas florestas, no vento, na terra e nos corpos das pessoas. Eles lembram um tempo antes das prisões, antes da polícia, antes da escravidão, antes da ideia de que a justiça pertence às instituições e não às comunidades. Justiça não é punição. Justiça é recuperação. A transformação requer que as instituições saiam do centro e entrem na humildade. Significa que os tribunais aprendam a caminhar ao lado das comunidades, e não à frente delas. Significa que a justiça não é algo feito para as pessoas, mas feito com as pessoas. Significa confiar na experiência vivida tanto quanto na experiência jurídica. Aqueles mais negativamente impactados pela injustiça geralmente possuem as melhores soluções, porque conhecem profundamente essa realidade. A justiça mais durável e sustentável é construída coletivamente. O futuro da justiça não é vertical, é circular”, concluiu Fania.
Fania Davis é uma ativista, advogada e estudiosa norte-americana, reconhecida internacionalmente como uma das principais vozes da justiça restaurativa e da justiça racial. Com doutorado em Conhecimento Indígena, ela combina décadas de militância pelos direitos civis com uma abordagem de “justiça como cura” e transformação social.
Autor: Naiara Martins
Fotografo:
Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
42º Gemam reforça atualização da magistratura diante de desafios sociais complexos
Published
12 horas agoon
22 de junho de 2026By
Da Redação
A evolução constante da sociedade e o surgimento de novos desafios exigem do Poder Judiciário uma resposta igualmente dinâmica e qualificada. Com esse enfoque, o desembargador Márcio Vidal, diretor da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT), abriu o 42º Encontro do Grupo de Estudos da Magistratura de Mato Grosso (Gemam) ao destacar que a busca por conhecimento é contínua e essencial para enfrentar problemas sociais que acompanham o avanço do tempo.
A afirmação de Vidal sintetiza o espírito do encontro realizado na última sexta-feira (19 de junho), no Tribunal do Júri de Rondonópolis, que reuniu magistrados(as) em uma programação técnica voltada à discussão de temas atuais e sensíveis à prestação jurisdicional.
Na abertura do encontro, o desembargador ressaltou que o Judiciário precisa acompanhar as transformações sociais, que evoluem junto com o avanço tecnológico, mas também trazem novos problemas.
Ao comentar a temática da palestra inicial, intitulada “Juventude em risco: O desafio das drogas no portão da escola e a proteção da vida por meio da internação compulsória para todos”, Vidal chamou atenção para a complexidade da questão das drogas entre jovens, classificando-a como um tema bastante sensível para toda a sociedade. Segundo o desembargador, o papel do Judiciário é justamente se manter atento e buscar constantemente novos modelos de atuação.
Representando a Corregedoria-Geral da Justiça, o juiz auxiliar Jorge Alexandre Martins Ferreira reforçou o apoio institucional ao evento e destacou o impacto da atualização contínua na qualidade das decisões. “É muito importante que o juiz se qualifique vendo coisas novas”, afirmou, ao comentar a relevância da palestra com o psiquiatra convidado, Diego de Souza Vacari.
Ferreira acrescentou que o contato com dados atuais permite compreender melhor a realidade social, citando como exemplo a evolução do potencial das drogas ao longo das décadas. “São fatos que a gente vê no dia a dia e que mostram que precisamos estar sempre reaprendendo”, completou.
Construção coletiva fortalece a magistratura
A proposta do Gemam como espaço de construção coletiva foi enfatizada pela coordenadora do grupo, juíza Alethea Assunção Santos. Segundo ela, o diferencial está na produção acadêmica conduzida pelos próprios magistrados(as). “A construção é feita pelos próprios juízes e, a partir das discussões, são elaborados enunciados orientativos para a prestação jurisdicional. Isso é muito importante porque enriquece o nosso trabalho, enriquece a prestação jurisdicional e serve como capacitação profissional e também pessoal para os magistrados de Mato Grosso”, explicou.
Ela destacou ainda que os temas debatidos refletem diretamente os desafios enfrentados nas unidades judiciais. “São dificuldades que encontramos no dia a dia da prestação jurisdicional e, a partir desses debates, conseguimos levar mais segurança para as decisões”, pontuou, ressaltando que o resultado é um serviço mais qualificado à população.
A realização do encontro em Rondonópolis foi celebrada pela juíza diretora do Foro, Aline Bissoni, que destacou a importância institucional do evento. “É uma honra receber o Gemam, um grupo que realmente traz temas muito relevantes para o nosso desenvolvimento”, afirmou. Para ela, a abordagem interdisciplinar amplia a visão dos magistrados sobre questões complexas.
Atuando na área criminal, a magistrada destacou o impacto prático do conteúdo apresentado. “Ouvir o psiquiatra falar de forma técnica sobre os malefícios das drogas e como elas se tornaram mais nocivas faz toda a diferença para que possamos julgar melhor”, disse.
No campo interdisciplinar, o psiquiatra Diego Vacari, responsável pela palestra de abertura, enfatizou a importância do diálogo entre diferentes áreas. Ele destacou como positiva a aproximação da magistratura com o tema. “A magistratura está cada vez mais interessada nessa situação, e isso é fundamental para desmitificar e aproximar saúde mental e justiça”, afirmou.
Vacari alertou ainda para o aumento do consumo de drogas entre crianças e adolescentes, fenômeno que, segundo ele, ocorre em escala global. “Os jovens estão usando drogas cada vez mais cedo, muitas vezes dentro da escola ou nas proximidades”, disse. Para o especialista, o enfrentamento do problema depende de atuação conjunta. “Se não houver união entre saúde, justiça, segurança pública e educação, não vamos conseguir diminuir esses índices”.
Outro destaque foi o painel sobre litigância abusiva, no qual a juíza Cristiane Padim da Silva apresentou proposta para aprimorar o monitoramento de demandas predatórias. “A ideia é registrar a Recomendação 159 do CNJ nas decisões em que houver abuso do direito de ação, para que possamos traçar estratégias mais eficientes”, explicou. Segundo ela, a medida busca garantir que o sistema de justiça seja mais acessível a quem realmente precisa. A magistrada também ressaltou a importância do encontro como espaço de troca. “A gente sai daqui cheio de ideias, de motivação, com mais preparo para a atuação diária”, afirmou.
Além das discussões sobre saúde mental, drogas e litigância abusiva, o 42º Gemam contou ainda com painéis voltados a outros temas relevantes para a atuação jurisdicional. Foram abordados o controle judicial do orçamento público e a aplicação de emendas parlamentares frente à discricionariedade e abuso de poder, o tratamento ambulatorial e as medidas de segurança aplicáveis a réus com doença mental, bem como o conceito e as implicações da chamada “purga da mancha probatória”.
Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected] ou pelos telefones (65) 3617-3844 / 99943-1576.
Autor: Lígia Saito
Fotografo: Rodrigo Moura
Departamento: Assessoria de Comunicação da Esmagis – MT
Email: [email protected]
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